Domingo de Ramos Clara Pinto Correia Íamos cercar o São Luís e o meu pai estava lá dentro. Morte ao Fascismo. Íamos atirar pedras às janelas e os meus irmãos também deviam lá estar dentro com ele. Morte ao Fascismo. A meio do caminho o controleiro mandou-nos parar e comecou a dar-nos instruções em voz baixa. Havia polícia parada nos passeios. - Mafalda - disse-me o Gonçalo da fila de trás. - Agora é que tu vais ver, camarada. Quando encontrarmos o teu pai lá dentro esmagamos- lhe a cabeça com uma pedra. Hoje ficaremos a saber se fizeste ou não a tua opção de classe. Eu dei um esticão brusco no braço da camarada da Buraca e recomecei a subir a calçada. Morte ao Fascismo. Morte ao Fascismo. Gritava com tanta raiva que quase me falhava a voz. Foi nessa altura que vi a minha mãe parada na porta de uma igreja. A minha mãe estava a chorar. E estava a olhar para mim com as mãos comprimidas uma contra a outra. Eu lembrei-me das almofadas bordadas a ponto cruz. Fiquei com o braço direito a meio do percurso. Ia baixá-lo. Ia parar. Ia falar com a minha mãe. Não ia nada. Tinha feito a minha opção de classe e ia prosseguir a jornada com os meus camaradas. A mãe deixou cair as mãos. Não tirara os olhos de mim. Nem eu dela. Foi tudo muito rápido. As outras filas, que continuavam a subida, empurraram-me para a frente e a mãe desapareceu atrás da farda de dois polícias. Fiquei sem saber como é que havia de voltar a casa dos meus pais. Também não vi muito o tareferio de Medicina. Ele deixava-me desenhos feitos a esferográfica na carteira, com foices e martelos no meio de fogueiras psicadélicas. Na editora puseram-me em cima da secretária uma pilha de discursos de Georges Marchais para traduzir com urgência. Eu chamei-lhes pró-soviéticos mas fiquei lá até tarde a acabar o trabalho. Já era noite fechada quando recebi um telefonema a convocar-me para uma reunião. Eu estava muito cansada mas o Luis disse que era urgente. Tratava-se de uma revisão de estratégia. Cheguei lá e os camaradas olharam para mim muito sérios. O Luis não parava de acender e apagar o isqueiro, que era daqueles a gasolina. O ar estava tão cheio de fumo que tive que piscar várias vezes os olhos até conseguir ver toda a gente. - Autocritica-te - disse-me o Gonçalo. - Primeiro preciso de saber qual é o meu crime - respondi eu, pousando a pasta no chão. Houve um silêncio breve à volta da mesa. Foi o maestro quem falou a seguir, com a voz rouca que começava já a ser a sua nova imagem de marca. - Estás ainda muito agarrada às tuas origens burguesas. - Maestro - respondi eu calmamente, e aproveitei para me sentar num banco que estava num canto com um cinzeiro em cima - Não fui eu quem veio para aqui de carro. Nem parei para jantar em nenhum restaurante. Se vocês não me tivessem interrompido, ainda estaria a trabalhar a esta hora. Pousei o cinzeiro no chão e fiz-lhes um sorrisinho que já era quase impaciente. - Estava a traduzir com muito interesse os discursos do Marchais - esclareci sem dó nem piedade - Lamento muito se não me encontrava disponível para lhe prestar outros serviços. O Luis perdeu o resto da calma e deu um murro enorme na mesa. - Camaradas! - gritou, e ficou subitamente rubro - Isto não pode ser. Já andam camaradas a gozar com camaradas! A fidelidade é um conceito burguês, não é, querido? Não consegui resistir. - Ah - respondi-lhe, e tracei a perna - Eu acho que gozar é bom. Estava tão cansada, e já tinha descarregado tanta energia no confronto daqueles minutos iniciais, que não retive grande coisa da borrasca monumental que se armou a seguir. A certa altura percebi que estava a ser expulsa do partido. As minhas origens burguesas tinham ficado despudoradamente à vista e o historial vergonhoso da minha família, que não era segredo para ninguém, era um embaraço para a classe operária. Acho que a certa altura me ri às gargalhadas. Depois também percebi que de repente o Luis se pusera do meu lado, mas já não comecei a prestar atenção a tempo de perceber porquê. Também nunca lhe perguntei. Acho que nessa altura já os problemas com a Cristina eram mais que muitos. E ela vivia com os pais, o que complicava substancialmente as coisas. Além disso claro que também acho que o Luis gosta mesmo muito de mim. De qualquer maneira, ele não foi expulso. Fazia parte dos quadros e tinha uma excelente rede de contactos. Saímos abraçados. Ele veio comigo para casa e deu-me beijos demorados no barco. Eu retribuí. De repente apeteceu-me casar e ter filhos. Não lhe disse nada mas enterrei-me mais na camisola dele. Ele passou-me os dedos pelos cabelos muito devagar. Quando abri a porta de casa vi que alguém tinha lá ido passar-lhe um envelope por baixo. Era a letra da minha irmã Kika. O Luis foi tomar duche. A carta dizia para eu estar no dia seguinte no aeroporto às oito da manhã. O pai e os manos iam tratar de uns negócios a Londres, e dali seguiriam directamente para o Rio de Janeiro. Os manos iam ficar lá, para fazerem uns cursos decentes, porque o ensino aqui estava num pandemônio e não se sabia quando voltaria ao normal. O pai ficaria com eles nos primeiros meses, para tratar de mais uns negócios. Talvez nós pudéssemos ir lá quinze dias nas férias, quando chegasse o Verão. Mas isto, por enquanto, era só uma ideia da mãe. Para a família estar reunida num sítio calmo, longe da turbulência. Se eu lá fosse amanhã talvez fizéssemos as pazes. Não podia era dizer-se nada ao pai sobre a visita que a mãe andava a engendrar. O Luis saiu do duche com o cabelo molhado e a cheirar muito bem. - Vais aonde? - perguntou-me, incrédulo. - Ao aeroporto - repeti eu - Para me despedir do meu pai, que vai uns meses para o Brasil. Mas só lá tenho que estar às oito. - São cinco da manhã - suspirou o Luis, deixando-se cair na cama com todo o seu peso de homem exausto. - Então - expliquei eu, e sentei-me ao lado dele subitamente cheia de energia - Só tenho que sair às sete. Ainda temos duas horas. O Luis endireitou-se com um salto e cravou-me os dedos a volta do pulso. - Não suporto que me fales assim. - Assim como? - Com essa frivolidade burguesa. Eu fechei os olhos. Ele disse que as mulheres do povo não diziam aos seus homens que ainda tinham duas horas para o nhoc nhoc. Disse que as putas é que diziam essas coisas. Eu pensei que as putas também eram mulheres do povo mas como estava com pouca paciência disse-lhe apenas que por aquele andar não íamos ter nem duas horas. Ele desatou aos berros que uma verdadeira revolucionária não vai ao aeroporto despedir-se de um facho que resolveu fugir para o Brasil. Eu atirei-me ao ar e gritei-lhe que o meu pai não ia fugir. Ia tratar de uns negócios e voltava daí a uns meses. O meu pai não precisava de fugir de ninguém. Ele sacudiu-me pelos ombros e disse que precisava de fugir do povo que havia de esmagar-lhe a cabeça com uma pedra. Eu disse que já não havia pachorra para essa conversa da cabeça esmagada com uma pedra. Ele disse que se fosse preciso até a minha cabeça seria esmagada. Eu disse-lhe que experimentasse, então por que é que não experimentava. Ficámos nisto até às sete da manhã. Ainda passámos brevemente pela cama, mas nessa altura eu estava a chorar e ele deu apenas um suspiro, só um, muito ténue, antes de se afastar outrea vez de mim e dizer que eu era uma puta fina da alta burguesia. Depois pediu-me desculpa. A seguir ainda disse que eu era uma puta de borla. Eu já lhe dizia a tudo que sim. Fumamos dois maços de Ritz e eu fui em directa para o aeroporto. Estava muito rouca. Três dias depois acordámos com o rádio a dar as mais inacreditáveis notícias e o trânsito de barcos no Tejo completamente cortado. Apareceu alguém que tinha binóculos e fomos para o terraço de cima do prédio, onde se estendiam os lençóis e se guardavam os triciclos de plástico, ver as movimentações no Terreiro do Paço. Não comi nada. Nunca me lembro de ter beijado tanta gente tantas vezes. Foi nesse dia que comecei a fumar. Depois foi tudo muito rápido. Sentámo-nos na encosta que dava para Caxias e esperámos pelos dois membros do coro que tinham sido presos. Estavam lá muitos outros grupos, à espera de muitos outros presos. Uns choravam. Outros faziam discursos. Outros cantavam, e outros rezavam o Pai Nosso de mãos dadas e outros não faziam nada. Nessa noite, pela primeira vez, ouvi imensa gente a falar de imensos partidos de cuja existência eu não fazia qualquer ideia. Mas eu não fazia ideia de coisa nenhuma. Nessa noite percebi que toda a gente no coro, ou quase toda, estava ligada a alguns desses partidos. E que isso já vinha de trás. E que eu nunca dera por nada mas agora era por aí que ia jogar-se o nosso futuro. O coro mudou de sede e passou a chamar-se Cooperativa Povo em Luta nessa mesma semana. Houve muita gente que sempre lá estivera e de repente deixou de estar. Houve muita outra gente que apareceu, vinda não sei de onde. Em geral parecia tudo menos doce do que antes. Mas a nossa excitação era tão grande que também não tínhamos propriamente tempo para dar por isso. O Luís disse-me que eu devia entrar para o partido. Eu disse-lhe que ainda nem sequer tinha percebido assim muito bem o que era o marxismo. - É muito simples - explicou-me ele - Há ricos e pobres, não é? Os ricos são maus, e os pobres são bons. Se tu estás do lado dos ricos estás do lado dos maus, e se estás do lado dos pobres estás do lado dos bons. Se estás do lado dos pobres és marxista. Agora escolhe. Mas escolhe já. A luta começou, e não haverá prisioneiros. Eu tivera uma solida educação católica. Aprendera de pequenina a acreditar no bem e no mal. Era só mudar os nomes. Não custava nada. Tornei-me marxista. E passei a não poder outra vez dizer quase nada quando ia jantar a casa dos meus pais. Chegava lá toda electrizada pelo ar que se respirava na rua e encontrava um ambiente crispado onde as pessoas diziam os comunas e partilhavam em frases curtas as suas apreensões por toda a espécie de desgraças iminentes. O avô morreu. Nunca percebi bem de quê. Foi uma notícia repentina que me acordou às seis da manhã, e que me deixou sozinha com uma dor que não pude partilhar com ninguém. No funeral toda a gente dizia os comunas. No partido não se chorava a morte de um facho. Fiquei sentada ao pé da campa dele depois de toda a gente já se ter ido embora. Não fiz nada. Não sabia explicar nada do que estava a sentir. Deixei passar muito tempo. Já não era capaz de rezar. Só queria que ele soubesse qeu eu continuava ali. Quando ia sozinha para casa depois de ter abandonado o cemitério vio o Luís a sair do barco de mãos dadas com a Cristina. Mais tarde ele explicou-me que a fidelidade era um conceito burguês. De qualquer maneira, nós não vivíamos juntos e nunca tínhamos planeado viver. As pessoas deviam estar umas com as outras apenas quando lhes apetecia. De forma que passei a ter encontros regulares com o maestro, que afinal há mais de um ano que era um alto dirigente do partido na clandestinidade e que já há bastante tempo que dava sinais de estar interessado nesse tipo de actividades. Achei piada a dormir com um homem mais velho. Foi uma espécie de âncora reconfortante lançada para o passado. Lembrava-me do meu holandês e punha-me a cantar a versão francesa da "Internacional". Ninguém conseguia decidir quel é que era a verdadeira versão portuguesa da "Internacional" e o maestro gostava imenso da minha voz. Quando a Cooperativa passou a albergar também o GIP e lá apareceu um tarefeiro muito moreno e de olhos muito tristes que parecia estar a precisar imenso de carinho, já não me pareceu ser necessário que acontecesse nada de especial para eu dormir com ele. Para mim, era tudo claro como água. Talvez ele não tivesse dado ainda por isso. Eu dei. Vi logo que o miúdo estava completamente apaixonado pela Sofia. A sofia acabara de fazer dezasseis anos. Tinha imensa graça, ams trazia ainda interposta entre ela e o mundo aquela carapaça de picos e de fervor apostólico que é característica das virgens. Tratava-se, a todos os títulos, de uma prestação de primeiros socorros. Nessa altura passávamos noites sucessivas em claro por causa das reuniões. Eu lembor-me de ter sempre os olhos a arder e a garganta seca. Lembro-me de adormecer nos autocarros e de chegar à editora estafada. Engolia várias chávenas de um café muito mau que lá se fazia e traduzia versões aelmãs de poemas do Maiakovski sentada contra a parede que agora estava toda forrada de posters com versos de Thiago de Mello. Tinha deixado de usar soutien e lembro-me de me sentir feliz. O tarefeiro tinha acabado de entrar para Medicina e sentia-se bastante infeliz. Houve uma madrugada em que me surpeendi a passar-lhe a mão pelo ombro e sugerir-lhe que viesse até minha casa. Ouvira-o segredar à Sofia que por acaso dessa vez trouxera o caro do pai. A Sofia dissera uma data de palavrões e daí a bocado fora a pé para casa. Gostava muito de andar sozinha a pé pela cidade, sobretudo fora de horas. O Mário olhava em frente quando entrámos no carro do pai dele. O Rossio estava todo cheio de grupos de gente a discutir. Também achei graça a dormir com um homem mais novo. O maestro não achou grande graça. A companheira dele, que era francesa, também não estava a achar qualquer espécie de graça. O Luís já há bastante tempo que não achava graça absolutamente nenhuma e a Cristina começava a achar que aquilo afinal tinha menos graça do que ela pensara ao princípio. Nessa altura o CDS anunciou o seu nascimento e convocou um comício para o São Luiz. O meu pai era um dos fundadores do CDS. O partido estava determinado em esmagar a besta fascista logo ali à nascença. Agora escolhe, dissera o Luís. Eu escolhera. Engoli todo o mal-estar, todo o remorso, todas as memórias do meu pai a passear comigo ao colo nas manhãs frias do Inverno no Alentejo. Em Breve não teremos nada no Alentejo, dissera o meu pai ainda há poucas semanas, e essa era uma das razões pelas quais ele achava imprescindível investir toda a sua energia, e a sua vida se fosse preciso, na imposição do CDS. O meu pai nessa altura chamava-me Minhoca. E tirava-me imensas fotografias, porque de todos os meus irmãos e primos eu era que fazia mais poses. O meu pai gostava de mim. O meu pai gostava muito de mim. Há uma espécie de amor que só os pais podem ter pelas filhas. Enfiei o braço esquerdo no de um camarada vindo da Buraca, ergui odireito com o punho cerrado quando o controleiro deu o sinal, e comecei a subir o Chiado com todos os outros manifestantes gritando Morte ao Fascismo. Eu ia na primeira fila. Morte ao Fascismo.