Clara Pinto Correia Ponto pé de flor Nessa altura Celeste amava um marinheiro, e ficava em casa à espera do momento em que o barco dele passasse na barra rumo a qualquer água longínqua de um mar distante, desenhado a aguarelas azuis e cinzentas no mapa fluido e incerto das longas separações. Era noite e o rio estava cheio de luzes flutuantes por trás das cortinas vagas da chuva, pontos verdes e vermelhos que cruzavam devagr a espessura da faixa negra ao fundo da encosta coberta de telhados de prédios e de antenas de televisão. Celeste sentava-se diante da janela e via o desenho trémulo da ponte na humidade salobra do vento, o último comboio passava muito longo e solitário rente às praias de lodo da foz. Sabia que a qualquer instante um homem havia agora de navegar por ali, uma vez mais de partida no segredo da casa das máquinas, e esse era o homem que ela então amava. Celeste reconhecia os dois faróis amarelos na proa, acelerava-se-lhe o croação, abria os vidros e acenava longamente com um lenço bravo. Adeus meu amor, rimas simples de uma canção antiga. E ele, que decorara no primeiro olhar a latitude e a longitude da janela de onde uma mulher estava a vê-lo sumir-se na voragem vasta do mundo, atroava por três vezes o sono da cidade com o eco plangente da buzina, adeus, adeus, adeus querida, de novo e sempre para nunca mias. Cá vou eu, Celeste, nos quartos do leme a pensar em ti. Depois o escuro tragava os dois faróis amarelos num silêncio demorado, Celeste guardava o lenço e deixava escapar um suspiro. Devolvia-se devagar à penumbra da casa, sorria para si própria e para a imagem improvável daquele amor embrcadiço todo povoado de bússolas e guindastes, e de nós e de milhas marítimas, um amor com barbatanas de golfinhos a ferir a superfície junto ao casco e mulheres sem rosto que de madrugada cantavam baixinho na errância dos portos. Celeste amava um marinheiro e a seguir abria a porta do frigorífico sem acender a luz da cozinha, tirava uma garrafa de litro de cerveja preta e voltava para a sala. Foi assim que a encontrei quando lá cheguei com o cão. - Um dia - prometera-lhe ao princípio, e era uma decisão solene - Um dia, querida, vais ver. Hei-de ser capaz de te apanhar de surpresa. Mas como talvez já não haja mesmo nada que consiga surpreendê-la limitou-se a levantar uma sobrancelha, muito séria e digna no olho da tempestade que antecede as explosões de riso incontrolável. Rimo-nos desesperadamente antes de termos trocado uma única palavra, eu parada na porta, pálida e exausta. E com o cabelo a escorrer água, porque tinha arrumado o carro dois quarteirões mais adiante e no meio do meu desaire claro que nunca mais me lembrei do chapéu de chuva. De sexta para sábado e com um cão nos braçops, ali estava o que restara de mim. Entrava-lhe em casa a própria face da tragédia às três e vinte da manhã, agora que um navio acabava de submergir na imensidão nocturna com o seu amor a bordo, e quando estávamos quase a conseguir controlar-nos ela levantou a outra sobrancelha. - Que horror - entoou em voz de contralto - De que raça é que é o cão? Caí-lhe nos braços, desatei finalmente a chorar, e ela encheu-me de beijos. Catarina Escuta, ó Senhor, o meu apelo de justiça; atende ao meu grito por socorro! Salmo 17, 1 Tinha pela primeira vez à minha frente o famoso ToPê, e na realidade não era mau. Mas, por qualquer razão, quando as nossas amigas nos falam longamente das suas paixões antes de chegarmos a conhecer o corpo que lhes diz respeito, a expectativa acumulada deixa- nos sempre um sabor a pouco ao confrontarmos horas infindas de liberdades fantasmáticas com o objecto que no início as despoletou. Ou então era eu que nessa noite não estava particularmente predisposta para apreciações detalhadas do género, porque o que é certo é que não descansei enquanto o rapaz não se levantou para ir à casa de banho. E só queria que ele se demorasse por lá imenso tempo, que nunca mais voltasse, que de repente ninguém estivesse apaixonado por ninguém porque para variar desta vez não me interessavam as emoções da Catarina. Precisava dela. Chovia desalmadamente na rua, e eu precisava ddela só para mim. E ela sabia. Eu sabia que ela sabia. Tinha visto na minha cara quase tudo o que eu não lhe disse quando desceram os dois do comboio de mãos dadas, numa grande confusão de malas e om o cabaz de vime onde o cão estava a dormir, e nos agarrámos uma à outra na algazarra festiva do costume, até que eu me pendurei do pescoço do ToPê e o beijei calorosamente. Bem-vindo a bordo, pequenino. - Este é o ToPê - dissera ela. E pestanejou de uma forma suavemente intencional, mas já não estava a apresentar-me o amante ao fim de longos meses de confidências telefónicas. Estava a medir os sinais mínimos da minha perturbação com todos os sentidos em actividade, e a auscultar em cada um dos meus gestos a dimensão do desastre. A Catarina viu-me na plataforma e percebeu no primeiro olhar qeu afinal não era dela que se tratava, mas atravessado entre nós estava agora um homem de olhos azuis. E gabardine azul, e barba de três dias, o corpo do delito que supostamente nos reunira ali e não podia perceber como de repente era tão importante que qualquer imperativo prosáico o obrigasse a deixar-nos momentaneamente o campo livre. Quando por fim o vimos contornar-nos pela direita, incerto e etéreo, inclinámo-nos sobre a mesa numa sincronia perfeita e sorrimo-nos a mensagem cifrada de que o socorro mútuo estava a postos. - Conta-me tudo - disse ela, e fez-me uma festa na mão. - Não posso - respondi eu, e apertou-se-me a garganta porque era horrível não poder contar-lhe tudo - Não temos tempo. De que raça é que é o cão? Ela compôs uma expressão indignada. - Ó menina - protestou -, pelo amor de Deus. Então não vê que é um genuíno que é um genuíno cão-d'água português, e que quando crescer vai ser muito grande, muito belo e muito forte, como um verdadeiro príncipe encantado, para tomar imensa conta de si? Arqueou as sobrancelhas. - Não sei porquê - acrescentou - mas pareceu-me mesmo que ias precisar de uma criatura forte, bela, e fiel, que tomasse imensa conta de ti. - Ai Catarina - gemi eu de desgosto e solidão, qneuanto lá fora o céu de Novembro se desfazia sem fim sobre a cidade e sobre os barcos e as gruas do cais. - Dói-te muito? - perguntouela. - Dói-me tudo - disse eu. Quando saíssemos dali a Catarina e o homem que viera com ela no comboio iam meter-se no carro velho da Joana, que estava parado desde a véspera em frente da estação. Eu trouxera as chaves na mala. Ficara tudo combinado há mais de uma semana, entre risinhos brejeiros e olhares de cumplicidade implícita, a festa dela era a nossa festa. Iam guiar pelo meio da chuva que caía no escuro, debaixo de árvores sem folhas e por cima de pontes antigas, pela beira do rio e até às terras alagadas do estuário. Estradas de areia começariam a cruzar o caminho à luz dos faróis, talvez apertassem de vez em quando a mão um do outro com muita força sobre a alavanca das mudanças, sem dúvida sentiriam em silêncio uma comoção feliz inundar-lhes devagar a consciência. Então esqueceriam por fim todo o passado e todo o futuro, não restaria nada para além dos dois dias que lhes pertenciam, talvez as asas de um pássaro nocturno os cruzassem num voo baixo, lentas e pardas sobre os arbustos rasteiros. Talvez a certa altura se perdessem, mas ela levava o mapa dsenhado às três pancadas num guardanapo de papel enquanto a minha bica arrefecia no café deserto da gare. Ao fundo do terceiro desvio à esquerda, pousada em sossego na planície, encontravam a casinha com o portão amarelo. E entretanto eu ficava de novo irremissivelmente entregue a mim própria, a sós com o meu medo e com a vontade impiedosa de já não pensar, já não sentir, já se ter escoado muito tempo e esta noite ser apenas uma memória remota em dias felizes que eu pressentia mas não conseguia visualisar, uma dor longínqua que como todas as dores violentas se enterra tão fundo que quase se esquece. Ia segurar para eles a porta do carro e rematar a cena com uma reverê cia galante, os passeios estavam reluzentes de água e à volta dos candeeiros formavam-se halos leitosos de humidade. Depois a Catarina e o ToPê dela estariam já muito longe, e eu não teria nada, nada de meu, a não ser um cão pequenino adormecido dentro de um cabaz de vime. - É o que eu estou a pensar? - perguntou ela. - Claro - disse eu, e esbocei o que deveria ser a caricatura de um sorriso heróico. Ela agarrou-me no joelho por baixo da mesa. - Oh, meu amor, meu tesouro, minha tonta. Estás bem? - Não - respondi eu. Rimos muito, trocámos pontapés, e depois ela deu-me uma cotovelada e perguntou se não era melhor cancelarem aquela história toda da casinha do portão amarelo. - Para poder estar contigo - insistiu - Ainda tenho o resto da vida para estar com o homem, se Deus quiser. - Oh meu amor - disse eu - meu teouro, minha tonta, deixa-te de partes. Não trouxeste o pequeno na mala para vires dar apoio à infância desvalida. E o trabalho que nós tivemos com a bodega do carro e a porcaria da casinha? Isso é que era bom. A menina veio passar dois dias no paraíso e agora via mesmo para lá, quer queira quer não. Fiz uma pausa dramática. - A propósito - acrescentei - aquilo não tem água quente. Ela pôs as duas mãos sobre o coração. - Ai mulher - arrepelou-se Pela tua rica saúde. O ToPê vai ter uma coisa má. Abanou a cabeça. - Que belo par de jarras que vocês me saíram, suas peruas - lastimou-se, mimada e rejuvenescida - Já não se pode confiar em ninguém. E tu, e agora, o que é que vais fazer? - Sei lá - respondi - Para já acho que vou sofrer ocmo um cão. - Estou a ver que reservas um futuro fabuloso ao príncipe encantado que eu te trouxe - disse ela - Ai pequenina, não posso deixar-te aqui sozinha neste estado. - Tenho essa coisa que está dentro do cabaz - resmunguei eu. - Mas podemos falar quando eu voltar da casinha, não é? - sugeriu logo ela. Estava mesmo preocupada comigo, de contrário teria acrescentado qualquer picante relativo à eventualidade de nunca chegar a sair de lá com vida. - Então, linda - disse eu, muito profissional - quando a menina vier da casinha está a mãe no Porto, se Deus quiser. Ela acendeu outro cigarro. - Vais liderar a grande causa dos vitelos de todo o mundo junto das gentes do Norte? - perguntou, muito terna e irónica - Com bê de boi ou com bê de baca? Encolhi os ombros. - Vê-me bem - refilei, e era absolutamente verdade - As parvas das vacas, com aqueles olhos de vacas, e tudo. Por acaso agora era mesmo o que estava a apetecer-me. - Se calhar faz-te bem - sentenciou ela, sábia - Mudar de ares, e isso. - Oh filha - cortei eu, desinteressadíssima - a mim tudo me faz bem. E não pude acrescentar mais nada porque entretanto o ToPê já estava de volta, muito alto e vagamente atrapalhado, assim posto a figurar sem aviso num palco que não lhe dizia respeito. Encostei-me para trás na cadeira, e tirei o cabelo da cara. - Estás muito gira, mula - segredei-lhe.