Álamo Oliveira Até hoje (memórias de cão) A manhã vai rósea, os verdes negros, o cacimbo baixo, e já todos se levantaram, deslizam pelo quartel, as mãos nos bolsos, cabeças derrubadas, olhos sem direcção. Os pássaros não estão barulhentos, quietos nas seringueiras e nas mangueiras, sem fome, uma preguiça nas asas que os retém. Chega ao quartel um ruído de pilão que não destrói o silêncio, antes o acentua com aquele ritmo lento de dobre a finados. Há um luto no coração, muito negro, muito pesado, uma dor que se quedou, contida, muito viva, que arde. O cadáver do Zé Domingos lá está na pequena capela e ali ficará por quase quarenta e oito horas, à sorte do abandono nacional. Fora embrulhado num lençol que logo manchou de sangue e ali ficou, pesadelo permanente, aflição de vómito, a todos queriam fugir. Amavam-no sem reticências. Lembravam a sua alegria ambulante, as suas anedotas frescas, contadas em barítono perfeito, preenchidas de pormenores imaginosos e hilariantes. E era amigo, amigo a tempo inteiro, daqueles que só a guerra e a miséria, fêmeas do mal, sabem gerar. Em breve sentir-se-á o entardecer, e os homens ficarão nervosos. O próprio capitão deambula entre a capela e o abrigo onde funciona o centro de transmissões. Olham para o céu, não para rezar ou pedir um anjo, mas sim o helicóptero que trará outro caixão de chumbo para o Zé Domingos. Sabiam que o tinham perdido para sempre e era-lhes doloroso tê-lo ali a inchar, já em decomposição e enjoando por culpa do primeiro caixão que viera de Bissau. Era pequeno. Ainda tentaram quebrar-lhe as pernas para que coubesse, mas o Zé Domingos, apesar do seu cheiro a podre, protestou ainda uma última vez. Era um morto demasiadamente grande para caber na bitola feretrária do país, o país que o empurrara para a guerra e a quem cabia agora o direito de ter, pelo menos, um caixão talhado à sua medida. Mas chegou a noite e engoliu Binta com a sua enorme boca. O helicóptero já não vem. O silêncio, se possível, é agora maior. Apesar de juntos, cada um está sozinho, remetidos ao avesso, sem palavras, ruminando a solidão. "Mãe, não quero morrer aqui!", João com o aerograma sobre o tampo irregular do caixote da roupa, a vontade toda de fugir, de mentir, desfeita a última ilusão, o valor da pátria, a razão da guerra. O cadáver do Zé Domingos era a acusação suprema. Soldado morto não é herói. É apenas impecilho que se tenta enfardar depressa no primeiro caixão vazio que aparece. Fosse ele o morto e também o forçariam a caber na medida nacional de caixão. Antes morrer na ilha, de velhice ou de malzinho precoce, com direitos sagrados, o pranto dos parentes e dos amigos, morrendo talvez numa tarde de vento, outubro de nuvens negras, enroscadas, metido em caixão de pinho, pregado a número cinco, os pregos, e forrado de sarja preta com cruz branca de pano de lençol. E antes de fazerem o caixão, tirar-lhe-iam a medida para que fosse ali, muito certinho, sem sobrar nem faltar. Alguém poderia colocar uma flor, um toque de festa, uma certa alegria na viagem. Morreria por si. Só por si. E não morreria nunca como o Zé Domingos, esventrado por granada de morteiro, granada que nem trazia destino certo e que o apanhou sobre o cais enquanto gritava ao gajeiro que lhe trouxesse um mulher acesa. E ela veio atenuar o seu delírio. Só que não veio acesa e chamava-se morte. "Mãe, não quero morrer aqui! Não quero morrer aqui! Não quero que te vão levar um telegrama untado de luto e te digam, com a tristeza falsa que qualquer sargento mal sabe disfarçar, que morri dignamente em combate, salvando a honra da pátria. Se te disserem, mãe, que fui um herói na acredites. Chora-me, mas não acredites. Porque se eu morrer aqui, foi sem querer. E hei-de ter muita pena." O aerograma estava, assim cheio de morte, daquela que se não quer porque se adora viver. João ficou quase toda a manhã na cama, morno, lasso, fastidioso. Não foi ver se o novo caixão que o helicóptero trouxe era ou não era do tamanho do Zé Domingos. Desviou-se desse momento para não dizer adeus, para não chorar. Deambulou pela margem do Cacheu, deixando que as horas derrubassem o sol, afogando-o tristemente por detrás da mata do Ohio, enquanto o Mamadu puxava para terra a sua canoa de pescar. "Manga de peixe, Mamadu?!" "Pouco nada, nosso sôrdado!", a resignação na voz, o perdão do tempo perdido, da avareza do rio. João espia o fundo da canoa, meia dúzia de peixes verdes, magricelas e de mau gosto, Mamadu despeitado, um dia inteiro de trabalho, o Cacheu cioso de seus peixes. Na sua ilha, os barcos atracavam no porto de S. Mateus gemendo e afundando de peixe, chicharros a saltar em alegre agonia. Eram pescadores danados de engenho e arte, num mar generoso de riqueza vária. Chegavam de madrugada, subiam o varadouro à força de braços, braços calcinados de sal e aguardente, fortes que nem tenazes. Peixe a monte. Os nabiças à vez, enchendo cestos e carroças e ala pela ilha fora, apregoando a fartura do mar, conduto dos mais pobres. "O Cacheu não é o Atlântico...", ri-se da sua própria ingenuidade, os pés sujos de lodo cinzento, peganhosos, um duche por fim. Na cama do seu abrigo, acosta-se à violência do seu estar na guerra, um peso na alma, o desafio sinistro do rodar sonolento dos ponteiros do relógio. A si mesmo pergunta "Porquê?" E não sabia. Retoma o aerograma que escrevera de manhã. Relê-o e rasga-o de seguida. Não discutiu consigo. A decisão foi mais o gesto, a vontade de destruir alguma coisa. Toma outro aerograma e mentirosamente escreve: "Saudosos pais e irmãos, permita Deus que ao receberm estas breves palavras se encontrem a gozar uma boa e feliz saúde. A minha vai bem, graças a Deus," o começo igual, de leitura desnecessária, uma forma de arrancar, de encher papel. Depois, puxando por um humor demoníaco que lhe aziava no estômago, diz que tem pouco para contar, que as novidades são poucas. Falará de Binta numa réstea de mentiras pegadas. Não tem de África o fascínio, pelo menos, não o sente. Bissau e Binta eram para esquecer. Poderia dizer nomes exóticos. Falar de gazelas e de cobras, tarântulas e camaleões, hipopótamos, leopardos e macacos. Impressionar de cores vivas com papagaios, íbis e pelicanos. Sugerir riquezas de mogno, pau- ferro e coqueiros. Encher a boca de sumos com caju, manga e papaia. Arrepiar cabelos com descrições de ritos estranhos, de máscaras ancestrais, tatuagens de significados obscuros, mistérios de deuses desconhecidos imprecados na paixão viril de batuques indecifráveis. Mas a pobreza das gentes era uma verdade maior, pobreza de pão visível, palpável. E lá foi escrevendo que Binta não era bem um quartel de mato, entalado no cerco alto do arame farpado, com velhos barracões de mancarra, outrora sinónimo de comércio, hoje com utilidades várias e sempre profundamente vazios. Vinham batelões rio acima, sem perigos de morteiro, carregar colheitas de amendoim, que dariam óleo nos alambiques de Bissau. Não fossem as árvores e Binta seria agora um deserto. Mas João fala de cidade bonita. Só faltam algumas montras de comércio para se ver de passeio, as ruas largas, ruído provinciano. O Cacheu tem a largura do canal entre a Terceira e S. Jorge. "Isto é só para fazerem uma ideia da sua grandeza!", os barcos a passear turistas, as mulheres de capulanas garridas, sentadas na margem do rio, gozando a sombra das palmeiras, suas bugigangas, pechisbeques de missanga e vidrilhos à venda com um sorriso de dentes brancos, e os artesãos de pau-preto com seus ídolos e duendes, amuletos eternos de bizarria e ainda as esteiras, os cestos de colmo, ao lado as estranhas e primitivas armas de guerra, catanas, lanças e machados de formato esquisito, lavrados de desenhos bíblicos quando da Bíblia nada sabem. "Manga de ronco, nosso sôrdado!...," isto não é Binta, é tão só uma ideia vaga do mercado de Bissau, uma tarde de passeio, a entrada curiosa, o cheiro acre das frutas a apodrecer ao sol. "Os pássaros são muito felizes nesta terra, têm muitas árvores para fazerem os linheiros. Quando as luzes acendem, reflectem o brilho nas águas cristalinas..." Riscou cristalinas e escreveu à frente brancas não fossem julgar que se armava em prosa. E não pensou mais nas águas lodosas do rio, o lodo das margens, a terra vermelha como que pintada de sangue, a sua esterilidade, o seu ventre oco. "Temos cafés para conversar e distrair um bocado" e nunca usavam o bar da cantina militar, onde se bebia a angústia a litro por uma garrafa de cerveja, o chão cuspido, os mosquitos a monte, as baratas gordas de bolachas, um bafio a lúpulo e álcool. "A guerra?! Que é isso?! Isto é uma zona de paz sem guerra possível. Acreditem nos comunicados oficiais que dizem que a situação na Guiné está praticamente normalizada. Mais dois ou três tiros disparados para o ar., os turras acagaçam-se e isto fica o paraíso...", ignore-se a mata do Ohio à sua frente, os ataques sucessivos na fronteira sul, o desassossego premente na érea de Nova Lamego. "Os que morrem aqui é quase sempre por desastre e por tolice...", tal e qual como o Zé Domingos que tivera o azar de ser apanhado por aquela granada de morteiro, que ninguém soube donde veio nem quem a mandou, só porque desafiou o destino dos deuses, ao grito incontido de arriba, arriba, gajeiro!, vê se avistas uma mulher acesa. "Não se aflijam por minha causa. Estou bem. Somos todos bem tratados e bem alimentados...", as salsichas tóbom a boiarem na terrina, a papa do arroz mal cozido, o almoço de há pouco. Todos os dias se sentavam à mesa com a pontualidade da fome, a mesma mistela dentro da terrina, dia- a-dia, duas vezes, há quase nove meses. "Estou muito mais gordo...", olhando os ossos do peito, mais a verdade da balança da enfermaria. Dos sessenta e oito quilos que levara para a Guiné restavam-lhe cinquenta e sete. Mandou visitas, saudades, cumprindo a praxe final da escrita epistolar. Assinou e fechou o aerograma. E viu como eram lindas as suas mentiras verdadeiras. "Nem tudo o que é oiro brilha!," cicia sibilino, na alma a inundação da paz muito podre, o mesmo sabor inexplicável do beijo de Fernando pousado na testa na sua primeira noite de guerra. Chove e é julho, vê-se pelo calendário que tem os dias riscados um a um, a paciência posta ao serviço do tempo que se desgasta morosamente, xisto na praia, lima que lima, mais liso e redondo, mas ainda xisto e não areia, 1968, em Binta, algures no norte da Guiné, na margem do Cacheu, ponto achado na quadrícula da guerra, mandingas e balantas, a cabeça de palha. João sai do abrigo. A chuva é quente. O cacimbo vem ainda antes da noite. Sobre o abrigo, o Mastigas está sentado, as pernas cruzadas, um buda, balanta voltado para Meca, "Alá nos cubra com a sua benção...!" O Mastigas estava voltado para a mata do Ohio, os olhos vagos, perdidos no longe, pequenino e curvado, velho pirata lírico a rezar recordações. O corpo oscila, adiante e atrás, pêndulo de relógio sem horas para dizer. Indiferente à chuva, lá fica naquele movimento todo triste, as roupas coladas de agúe e não está bêbado - sente-se. João procura palavras, uma palavra, talvez mesmo um gesto, um simples ruído, para transmitir ao Mastigas. "Vai-te embora, João. Segue o teu caminho...", é o Mastigas que fala, ordena, assim se depreende da voz. Não interrompeu o balanço, não desfitou os olhos, não pronunciou um gesto. Apenas, "Vai-te embora, João...", o problema é dele, ninguém tem nada com isso e na guerra há um respeito real por todas as solidões. "Fernando, o Mastigas está em cima do abrigo...", etc., toda a gente o sabe. Desde que o Zé Domingos morreu está para ali enrodilhado, nas horas que lhe sobram. Não chora, não grita, não fala. Fez-se pêndulo de silêncio, adorador dos grandes vazios. É que eles amavam-se. Discretamente.