No Turbilhão A Jaime Batalha ReisNo meu sonho desfilam as visões, Espectros dos meus próprios pensamentos,Como um bando levado pelos ventos, arrebatado em vastos turbillhões...Num espiral, de estranhas contorções,E donde saem gritos e lamentos,Vejo-os passar, em grupos nevoentos,Distingo-lhes, a espaços, as feições...-Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,Que me fitais com formidável calma,Levados na onda turva do escarcéu,Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?Quem sois, visões misérrimas e atrozes?Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!... Antero de Quental, in Sonetos AspiraçãoMeus dias vão correndo vagarosos,Sem prazer e sem dor pareceQue o foco interior já desfaleceE vacila com raios duvidosos.É bela a vida e os anos são formosos,E nunca ao peito amante o amor falece...Mas, se a beleza aqui nos aparece,Logo outra lembra de mais puros gozos.Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:Se um momento a prendeu mortal beleza,É pela eterna pátria que suspira... Porém, do pressentir dá-ma a certeza,Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,Eu sempre bendirei esta tristeza! Antero de Quental Mors-Amor A um poeta Tu, que dormes, espírito sereno, Posto à sombra dos cedros seculares, Como um levita à sombra dos altares, Longe da luta e do fragor terreno, Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno, Afuguentou as larvas tumulares... Para surgir do seio desses mares, Um mundo novo espera só um aceno... Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! são canções... Mas de guerra... e são vozes de rebate! Ergue-te pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate! Antero de Quental Esse negro corcel, cujas passadasEscuto em sonhos, quando a sombra desce,E, passando a galope, me apareceDa noite nas fantásticas estradas,Donde vem ele? Que regiões sagradasE terríveis cruzou, que assim pareceTenebroso e sublime, e lhe estremeceNão sei que horror nas crinas agitadas?Um cavaleiro de expressão potente,Formidável, mas plácido, no porte,Vestido de armadura reluzente,Cavalga a fera estranha sem temor:E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!"Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!" Antero de Quental