Antero de Quental Biografia Antero Tarqüínio de Quental. Ponta Delgada (Açores), 1842 - 1891. Obras Principais - Poesia: Sonetos, 1861; Beatrice, 1863; Odes Modernas, 1865; Primaveras Românticas - Versos dos Vinte Anos, 1872; Sonetos, 1881; Sonetos Completos, 1886; Raios de Extinta Luz, 1892; - Prosa Polêmica e Folclórica: Cartas de Antero de Quental, 1915; Cartas Inéditas de Antero de Quental a Oliveira Martins, 1931; Cartas Inéditas de Antero de Quental a Wilhelm Storck, 1931; Cartas de Antero de Quental a Antônio Azevedo Castelo Branco, 1942. Antero de Quental Antero de Quental Uma Amiga Aqueles que eu amei, nao sei que vento Os dispersou no mundo, que os nao vejo... Estendo os bracos e nas trevas beijo Visoes que a noite evoca o sentimento... Outros me causam mais cruel tormento Que a saudade dos mortos... que eu invejo... Passam por mim... mas como que tem pejo Da minha soledade e abatimento! Daquela primavera venturosa Nao resta uma flor so, uma so rosa... Tudo o vento varreu, queimou o gelo! Tu so foste fiel - tu, como dantes, Inda volves teus olhos radiantes... Para ver o meu mal... e escarnece-lo! Antero de Quental Pepa Dá-me pois olhos e lábios; Da-me os seios, da-me os bracos; Da-me a garganta de lírio; Dá-me beijos, dá-me abracos! Empresta-me a voz ingênua Para eu com ela orar A oração de meus cantos De teu seio no altar! Empresta-me os pés, gazela, Para que eu possa correr O vasto mundo que se abre Num teu rir, num teu dizer! Presta-me a tua inocência, Para eu ir ao ceu voar... Mas acende cá teus olhos Para que eu possa voltar! Por Deus to peço, senhora, Que tu mo queiras fazer; Da-me os cílios de teus olhos Para eu adormecer; Por que, enquanto os tens abertos, Sempre para aqui a olhar, Nao posso fechar os meus, E sempre estou a acordar! Pela Santa-Virgem peço Que tu me queiras sorrir; Por que eu tenho um lírio d'ouro Há três anos por abrir, E, se Ihe deres um riso, Há-de cuidar que e a aurora... E talvez que o lírio se abra, Talvez que se abra nessa hora! Por Alá, minha palmeira! Quando ao sol me for deitar, Faze sombra do meu lado... Por que eu quero-te abracar! D'amor te requeiro, ondina, Quando te fores a erguer, Ver-te no espelho das fontes... Por que eu quero-te beber! Antero de Quental Intimidade Quando, sorrindo, vais passando, e toda Essa gente te mira cobicosa, Es bela - e se te nao comparo a rosa, E que a rosa, bem ves, passou de moda... Anda-me as vezes a cabeca a roda, Atras de ti tambem, flor caprichosa! Nem pode haver, na multidao ruidosa, Coisa mais linda, mais absurda e doida. Mas e na intimidade e no segredo, Quando tu coras e sorris a medo, Que me apraz ver-te e que te adoro, flor! E nao te quero nunca tanto (ouve isto) Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras - mentindo - que me tens amor... Antero de Quental Primeiros Conselhos do Outono Ouve tu, meu cansado coracao, O que te diz a voz da Natureza: - Mais te valera, nu e sem defesa, Ter nascido em asperrima solidao, Ter gemido, ainda infante, sobre o chao Frio e cruel da mais cruel devesa, Do que embalar-te a Fada da Beleza, Como embalou, no berco da ilusao! Mais valera a tua alma visionaria, Silenciosa e triste ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia, (Sem ver uma so flor das mil, que amaste,) Com odio e raiva e dor - que ter sonhado Os sonhos ideais que tu sonhaste!> - Antero de Quental Maria Tenho cantado esperancas... Tenho falado d'amores... Das saudades e dos sonhos Com que embalo as minhas dores... Entre os ventos suspirando Vagas, tenues harmonias, Tendes visto como correm Minhas doidas fantasias. E eu cuidei que era poesia Todo esse louco sonhar... Cuidei saber o que e vida So porque sei delirar... So porque a noite, dormindo Ao seio duma visao, Encontrava algum alivio, Meu dorido coracao, Cuidei ser amor aquilo E ser aquilo viver... Oh! que sonhos que se abracam Quando se quer esquecer ! Eram fantasmas que a noite Trouxe, e o dia ja levou... A luz d?estranha alvorada Hoje minha alma acordou ! Esquecei aqueles cantos... So agora sei falar ! Perdoa-me esses delirios... So agora soube amar ! Antero de Quental Beatrice Nem visao, nem real: amor! amor somente!... Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ? Quando deixa cair no peito esta semente, Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas so - em pouco um mundo esta - Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra, Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera? Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso! Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos! Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso: E imenso o que vem dele... os nadas somos nos. E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso, O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor, Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso... Mulher! has-de escutar, que eu vou falar d'amor! Falar d'amor?!... se ele e como uma essencia, Que nos perfuma, sem se ver de donde... Se ele e como o sorriso da inocencia, Que inda se ignora e, p'ra sorrir, se esconde... Se e o sonho das noites vaporoso, Que anda no ar, sem que possamos ve-lo... Se e a concha no oceano caprichoso, Se e das ondas do mar ligeiro velo... Se e suspiro, que oculto se descerra, Se escuta, mas se ignora de que banda... Se e estrela, que manda a luz a terra, Sem se ver de que paramos a manda... Se e sonho, que sonhamos acordado... Suspiro, que soltamos sem senti-lo... Sopro que vai dum lado a outro lado... Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo? Falar do amor... do amor! o sempre-mudo! Se e segredo entre dois, como dize-lo, Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo? Se e misterio encoberto, como ve-lo?... Antero de Quental Mors - Amor Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me aparece Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas E terríveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas? Um cavaleiro de expressão potente, Formidável, mas plácido, no porte, Vestido de armadura reluzente, Cavalga a fera estranha sem temor: E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!" Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!" Antero de Quental Oceano Nox Junto do mar, que erguia gravemente A trágica voz rouca, enquanto o vento Passava como o vôo do pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermitente, Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o céu pesado e nevoento, E interroguei, cismando, esse lamento Que saía das coisas, vagamente... Que inquieto desejo vos tortura, Seres elementares, força obscura? Em volta de que idéia gravitais? Mas na imensa extensão, onde se esconde O Inconsciente imortal, só me responde Um bramido, um queixume, e nada mais... Antero de Quental A João de Deus Se é lei, que rege o escuro pensamento, Ser vã toda a pesquisa da verdade, Em vez da luz achar a escuridade, Ser uma queda nova cada invento; É lei também, embora cru tormento, Buscar, sempre buscar a claridade, E só ter como certa realidade O que nos mostra claro o entendimento. O que há de a alma escolher, em tanto engano? Se uma hora crê de fé, logo duvida; Se procura, só acha... o desatino! Só Deus pode acudir em tanto dano: Esperemos a luz duma outra vida, Seja a terra degrêdo, o céu destino. Antero de Quental Na Mão De Deus Na mão de Deus, na sua mão direita, Descansou afinal meu coração. Do palácio encantado da Ilusão Desci a passo e passo a escada estreita. Como as flores mortais, com que se enfeita A ignorância infantil, despôjo vão, Depus do Ideal e da Paixão A forma transitória e imperfeita. Como criança, em lôbrega jornada, Que a mãe leva ao colo agasalhada E atravessa, sorrindo vagamente, Selvas, mares, areias do deserto... Dorme o teu sono, coração liberto, Dorme na mão de Deus eternamente! Antero de Quental O Que Diz A Morte Deixai-os vir a mim, os que lidaram; Deixai-os vir a mim, os que padecem; E os que cheios de mágoa e tédio encaram As próprias obras vãs, de que escarnecem... Em mim, os Sofrimentos que não saram, Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem. As torrentes da Dor, que nunca param, Como num mar, em mim desaparecem. - Assim a Morte diz. Verbo velado, Silencioso intérprete sagrado Das cousas invisíveis, muda e fria, É, na sua mudez, mais retumbante Que o clamoroso mar; mais rutilante, Na sua noite, do que a luz do dia. Antero de Quental Noturno Espírito que passas, quando o vento Adormece no mar e surge a Lua, Filho esquivo da noite que flutua, Tu só entendes bem o meu tormento... Como um canto longínquo - triste e lento- Que voga e sutilmente se insinua, Sobre o meu coração que tumultua, Tu vestes pouco a pouco o esquecimento... A ti confio o sonho em que me leva Um instinto de luz, rompendo a treva, Buscando. entre visões, o eterno Bem. E tu entendes o meu mal sem nome, A febre de Ideal, que me consome, Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!