Mário Hélio 37-I/(Geneanalogia) no princípio era o inverno e o inverno era a chuva e a chuva era a água e a água era o sol e sol era vento e vento era deus no princípio era o verão e o verão era o sol e o sol era a chuva e a chuva era o vento e vento era água a água era deus. no princípio era a primavera e a primavera era a primeira flor e a flor era o vento e o vento era água e água era sol e sol era deus. no princípio era o outono e o outono era o fruto o fruto não era água não era sol não era vento o fruto era terra e a terra não era deus. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 38-II/(Véu) estou boiando em dDeus, dançando, rodopiando... nas andas ando ao léu profundo. estou deitado em dDeus, caminhando, claudicando até juntar-me ateu ao fundo. adormecido eu sonho dDeus monstro bonito e execrando, não sei como notei o rosto seu nem quando. aguardo as vestes para um novo ser que ser-me-á se semeando a quietude de perceber no afã do... ele existe tanto que me espanto com a sua existência por nascer, por terminar e por ser ser e mundo. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 39-III/(Vislumbre) nos gerais do calvário eu vil visionário espio da janela nenhuma a flor que nascera no lugar da cruz estrela ocasional de uma primavera sem desabrochar ruma para uma galáxia no além (o sol queimando o rosto e eu imerso em desgosto procurando alguém) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 40-IV/(Túmulos) navegante à praia nenhuma, vê se aventura, a ventura, a ave não voe pra distante diante dos teus olhos óc'los preciosos e imprecisos podes fazer caso combater com a vida mas não é preciso tudo o que é preciso é atentar no tempo é atender à vida ao seu brado mudo mundo doentio cuja infecção cura os nossos males mortos mais que vivos podes caminhar porque espaço há mas não é preciso * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 41-V/(Rapsódia) viajaram os iconoclastas, protomártires da loucura, ontem, nave, astro:nave de suavíssimo furor em busca dos prótons de marte -- natura desconhecida -- terra prometida do Senhor * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 42-VII(Idílio antigo) tomarás a estrada que te leva ao pouso único e teu e não de cada um. esses tipos esquisitos que encontras provarão que existem, nada mais. e te revestes sob a aparência de sono enlanguescido, sob o aspecto de abandono. porém, despertamento absorto é o teu sono e é contemplação o que parece abandono. nascerás para breve compreender que era tudo comum quando nascia, e é difícil de fácil compreender como e quando era o que nascia. mas não penses na vida... muitos o fizeram e se encantaram, deflagraram guerra ao vento. Mário Hélio 43-VIII/(Os frutos do sangue) se me tenho é com receios de não me possuir se me possuo é puro enleio de sentir. eu moro invernos nalma pejada de escolhos. se o mundo não me acalma é porque o não escolho. serpentes enroladas do húmus redivivo tudo é cativo e escada dos sentidos se vejo-me e me iludo pensando-me eterno é só porque eu cuido ser mudo o mundo externo. um dia que eu vagava nas plagas de um planeta eu vi além das vagas uma saturnal floresta a chuva borrifava rorerar porejante ferida que era clava escravo e atacante gladiador longínquo perdiz país-projeto o sangue vil e tinto extinto no abjeto esse querer infecto de impurezas é o coito e o incesto da tristeza trilhei mundos e planos além dos que trilhei o que reti foram enganos o resto não guardei se vim foi pra partir se fui foi pra voltar até me repartir até me revoltar com medo e raiva de mim no sangue a boiar no sangue que eu bebi o aboio e o guaiar morri já tantas vezes sem o saber que fiz o céu o campo e a rede são meu único país e morto porque vivo não sei me relembrar tudo termina o tido ao obtido pesar segui meu passo um dia cansei de me seguir por isso em certo dia me esqueci salvem fracos velhos fortes e os que não se salvarão tenho a mim e a minha morte pra servir de batalhão * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *