Mário Hélio 21-I/(As fezes da festa) hoje derramamos o líquido e a lágrima, amanhã beberemos o sangue e o suor de sempre. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 22-II(Poema para ayer) onde havia teus olhos grandes e dois uma lâmpada de neon fonte estranha e incompreendida ponte achada e para sempre perdida como um matagal de idéias incontaminadas por isso incompreendidas por um grito maior que a própria voz por isso inaudível por um amor sem nomes nem partidos por isso tolo e desinteressante por um grande mistério claro e simples por isso profundo e sem sentido * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 23-III(Estático) uma estrela cai no mar um silêncio enche o mundo um pavor se compenetra. um poema cai no mar uma gota d'água se misturva ao mormaço. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 24-IV (Espaçonavegavelar) num acúmulo de horas vejo coisa rodopiar através de cabeça por se desvendar através do espaçoar do mar num acúmulo de oras vejo rosto corar vejo a prece do medo do modo do homem gritar através do escaçomar do ar num acúmulo de ras tos nareia domar vejo gente morrendo ao se procurar anular num acúmulo de ascosturandoobarcomopodeumsóhomem tanta coisa desvendar? * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 25-V(A angústia) a angústia é um barco a angústia é um porto a angústia é uma semente na mente da carne do homem louco que morre sem saber a angústia é um homem excessivamente morto * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 26-VI(Expássaro) ícaro sem asa pássaro sem casa trovador trova dor a caro em as ássaro em asa rovador rova or a v aro ma ssaro m sa ovador ova r a vi ros saro as vador va a v id o s aro s a dor a a v id a o aro a or a vida a a a a vida a v a a vida a vi a vida: ávida ave do ar * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 27-VII (Incomunicável) trancou-se no quarto já sem mundo sem pátria pra ambicionar já sem bússola sem norte para se abrigar sem campo que a chuva regue sem diabo que carregue o nosso deus e como não havia estrela pra contar e como não havia doença pra curar e como não havia remorso pra curar e como não havia vida para matar e como não havia morte para aumejar ficou imóvel hirto supremo lembrando as imperfeições das primeiras rimas. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 28-VIII/(O mágico) o pássaro voou da cartola do mágico mas não havia cartola nem truque o pássaro-saíra da mão do mágico mas não havia mão o mágico num acidente mágico havia perdido as duas mãos e então de onde saíra o pássaro? do chão, sim, do chão de onde saem todos os pássaros mas não havia chão a multidão bem observou não havia multidão nem mágico mas o pássaro realmente voou. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 29-IX(Choro e luz) num dia de festa de muita alegria lavei meus sonhos na velha pia e tive medo de quem sorria e do segredo de quem morria mas era festa de só um dia já não bastava tanta agonia? eu precisava da tal fatia de choro e luz de fantasia mas a batalha era que ardia a sarça ardente na mente fria meu ser uma linha já que seguia seu próprio passo de travessia e para longe do espaço ia e até bastante cedo descobria não era amor o que se amou um dia era outra alegria que irônica ria era o nome do bicho que verônica via que me espantava mas não fugia que me matava mas nãomorria era outra alegria... e é triste toda alegria * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 30-X/(Dos que vivem na sombra) ontem suspeitei o cego em mim andei errante por ruas e não encontrei luas e me castiguei com medo de mim ontem descobri o monstro hurrando em mim quisera que meu corpo fosse vosso corpo o sombrio vagalume por pousadas de mim. ontem suspeitei o descoberto em mim e pensei em andar pra sempre nutando pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim vencido contrafeito morto me agarrei ao quindavia de intato em mim há muito eu constatei a insegurânsia em mim o anjo rebelde que havia em mim o estranho prisioneiro nas masmorras em mim escrevi versos duros de dura ansiedade mas não constatei verdade alguma escrevi versos pálidos num suspiro mas não encontrei nenhuma só lição à tona tropeçando nos meus passos penso que é angústia o sentimento vácuo mas não sei ao certo se existe angústia. quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo tendes lábios enormes e eu não os vejo mas no alto do rosto se incendeia a mesma luz sombria que me guia. as forças me forçam a fins que desconheço mas suspeito que está no universo falido ontem descobri o pouco que conheço e me vi trancado pelo avesso não sei se foi remorso o que passou por mim ou foi vontade de fugir de mim. ontem descobri o desespero em mim verti meu sangue no vasto mundo amorte doido feito busquei rasguei papéis desfiz contratos que com meu ego o tempo fez, sonhei loucuras calei-me há tempo meu sofrimento é tão imenso e tão presente que nem notei é lodo e mundo ida sem volta amorte é sangue maldiçoado corpo do livro pastirrasgado amorte é medo nunca explicado há sempre uma possibilidade de não me esconder, e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza é supérflua enquanto importa esta análise? deixa nua a verdade do medo todos temos medo talvez seja pela cereja que tenho no corpo e ninguém a colheu. nunca mais amorte amarei nunca direi sim direi sempre talvez. ontem suspeitei o inacabado em mim orgasma prometida à minha estrela à custa da revolta que houve sempre em mim os conhecidos seres conformados como eu inconformado que apesar da fraqueza nunca olhei pro fim às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes que arrebatadas nos levam distante mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante ontem constatei o espectro em mim com sua mão de fogo exorcizando a dor mas sei e muito sei que não existem santos apesar do ódio que sou eu amo tanto. ontem cobri redescobri grotescos arabescos ridículo estranho e iníquo eu era para mim. há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua) de esquecer a culpa e escapar de mim. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *