Maria da Conceição Paranhos Luz Inesperada Preparei a casa para te esperar: procurei nos cantos o passado e engastei-o à soleira da porta, petrificado em dor, mas refulgente. Não foi necessário mudar de casa para te esperar. Bastou a tua vinda, ainda de madrugada, para que tudo mudasse, e a lua crescente surgisse ao meio dia. A cama está feita, a mesa está posta, nas compoteiras brilham sobremesas feitas para adoçarem a tua boca quando a vida amargar, travar-se o riso. Meu corpo não é o mesmo de ontem, mas é mais virgem, através das horas, que me apartaram de outros desejos dos quais me afasto, emigrada de mim mesma. Foi gratuito o teu chegar. Por isso fica: permanece em mim e esquece a lágrima. Te esperei para chamar-te "meu amor", embora ingressem em minha voz e corpo antigas sereias, com pentes de espelhos, a retrançar meus cabelos destrançados, e te convidem para o sábio mergulho onde habitaremos: nós e o tempo. (do livro Esporas do Tempo, Prêmio Copene, lançado no Museu Costa Pinto, Salvador, BA, 20.06.96) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Maria da Conceição Paranhos Anunciação Anunciar. Lembra-me o encontro, vez primeira em que vi teu rosto no entanto oculto por tanta e tão espessa bruma. Tarefa de dizer. Pedi a tua vinda, supliquei às garras do tempo o teu encontro. Vieste, a indesejada das gentes, vieste e te alojaste à flor do lábio que não abre. Tomei a iniciativa. Ou fui, ao revés, tomada pela iminência, essa ganância, essa arrogância, essa demência, que se aloja na garganta? Pouco importa. Necessário sonharmos juntos. Vieste, apesar da hesitação nas fontes hostis da História. Doçura de ficar em tua sombra, permitida dessa luz inesperada, que me arrasta em surtos de violência Anunciação. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Maria da Conceição Paranhos Escuta Ocorre que há uns lapsos na história, há uns lapsos. Então vêm, videntes, relatar histórias conhecidas em noites longas de calor, insônia. Ouvimos. Pacientemente. Sob discursos jazem outras vozes. Necessário cantar. Animais se aninham ao nosso ânimo, baixam seu brado à espera da canção. E os leões de pedra dos portões deixam rolar os globos que os sustentam. Falamos línguas obscenas. Não. Endureceu-se o ouvir. Indefinidamente? Afrontar a rija espada dos confrontos, permitir soluços, se o peito arfa curvado de rajadas imprudentes. Se não se deixa a alma nesses lances em que transidos vagamos dementes, como afrontar as rugas, decifrar mensagens (não correm ventos nas paisagens mortas, largadas ao relento)? Necessário é amar. Primeiro e último tormento. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Maria da Conceição Paranhos Transição Expressar. Esquecer os atalhos, os desvios, a fuga. Este é o lugar : fincar raízes em solos aéreos, improváveis. Decifrar imagens no espelho esmerilhado por desastrado gesto. Cirandas na ausência, mãos tateando o escuro, o turvo elemento, o verbo, que depende. Como depende. Essa linguagem perseguindo a atenção do silêncio. Signos anunciam, seio conhecido, Vita nuova: "Amar-te-ei em excesso após a morte. Ninguém cantará teu amor como eu". Cantor de improviso, de onde vens e de onde extrais essa sabedoria imprudente? Começa agora outro dia. O poeta canta. O poeta canta. Por males que não espanta. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Maria da Conceição Paranhos Mãe Os lençóis não cobrem todo o corpo: há buracos cerzidos, invisíveis, pelos quais entra um vento de alfinetes. Inútil superpor camadas de tecido para atenuar o efeito perfurante: nem mesmo cobertores vedariam pontos invisíveis, como ducha a percutir no frio da pele tensa. Também inútil tentar ver tais furos mesmo com requintes da ciência. Ela sabe mais. Não sabemos donde vem tanto saber. Atordoa-nos, retira-nos do sono: procuramos, em vão, em livros vários entender o segredo do seu verbo. Ela fala mais. Quem fala, quem sabe a essa hora em que toda ciência desmorona ? Não carecemos de sabedoria: precisamos de tintas, muitas cores a escorregar no branco das paredes, a salpicar de tons lençóis inúteis, a tingir objetos incolores. Precisamos de luzes, muitas luzes, a iluminar essa sombra persistente no palco em que atores estão postos (esse zumbir perpetuado em nossas mentes). Ela pode se calar. Então, crescem segredos do seu ventre: retira do seu corpo seus pertences e os entrega a cada um, cantando uma canção dolente. Lá-lá-lá-lá, quem vem lá? É ela. Sonhamos com seu rosto iridente. Ela sorri nos sonhos, nos acena, nos toma no seu colo, inventa histórias, rimas, cantigas estranhas, persistentes. Seus olhos quais colméias - inquietude e faina; seus braços se distendem, e o balbucio amaina. Lá-lá-lá-lá, quem vem a. É ela. Sonhamos com sua face incandescente. Como é seu nome ? Como chamá-la, esfinge, ou responder, se o desvairio nos atinge ? Ensina-nos a precariedade das respostas, a matéria volátil de que são feitas rosas. Lá-lá-lá-lá, quem vem a. E ela. Cada vez mais sorridente. Mas se não fosse ela, há muito tempo, restaríamos sem teto, soltos, ao relento. Ela arredonda os braços e acolhe essa louca prole. Se é impossível dormir a seu lado, mais impossível abandonar o fado: essa rota de abismos que nos recolhe e nos reverte ao momento da semente. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Maria da Conceição Paranhos As Vãs Procelas Instala-se a noite em surtos de sombra - prenuncio de chuva em céu de tormenta. O cheiro do mato, de terra pingada por leve neblina avisa o momento em que tu vais chegar, bagagem atada na garganta, olhar de turmalina, buscando esmeraldas de outro tempo. Quando aqui chegares, virão chuvas, densas: de greta e cascalho, brotarão sementes. Mas se não chegas, essas fivelas do corpo (terra), não se descerram. As vãs procelas. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Maria da Conceição Paranhos O Poeta Soares Feitosa. O Segredo das Fontes Cinqüenta anos, cearense, movendo-se para a cidade de São Salvador, graças a Nosso Senhor do Bomfim que o está enviando como arauto de uma poesia que há alguns anos demanda seu lugar em nossa literatura. Até ficamos com medo dessa exigência da História, da Memória, da Experiência. É uma explosão implodindo e explodindo sucessivamente, para o momento apical da assestada em papel branco. Como uma realização das profecias de Poe e Baudelaire de modo radical, uma retomada de Lautréammont na era da eletrônica. A qual Soares Feitosa usa feericamente, na ânsia de visualização da torrente estourando de todas as comportas: Les perfums, les couleurs et les sons se répondent Correspondem-se os perfumes, os sons e as cores Il est des perfums frais comme des chairs d'enfants, Alguns perfumes tem da criança o frescor Doux comme les hautboi; verts comme les prairies A maciez do oboé, das matas o verdor Et d'autres, corrompus, riches et triomphants, E ricos outros são, triunfantes, corrompidos Ayant l'expansion des choses infinies Possuindo a tradução dessas coisas sem fim. (Tradução de Cláudio Veiga) Soares Feitosa muda-se para cá (nas articulações exteriores) a serviço. Até setembro de 1993 nunca tinha escrito uma linha sequer de poesia. Então explodiu implodindo e explodindo num épico cuja extensão atordoa e faz vacilar, um monstro lírico e telúrico nascendo desse rufar de tambores de guerra e de conquista. Livro que o seu autor também não se cansa de dizer entre perplexo e deslumbrado "é espantoso, é poesia, é grande poesia", com a simplicidade de um matuto de emoção simples numa mente poderosamente sofisticada e erudita nos clássicos. Só quer Grécia e Roma; depois ele não sabe mais nada. Eis então que, no alvorecer do Terceiro Milênio, ele responde ao segredo das fontes. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *