Bandeira Tribuzi Poema Um cão ladrou na noite obscura tremores frios de inanição A mulher magra esperou cansada que a carne exausta fosse chamariz Poucos sexos jovens se investigaram muitos não conseguiram fugir à frustração Alguns descansaram outros se diluíram o caixote de lixo esperou esperou Depois rompeu a madrugada. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Bandeira Tribuzi A mesa A mesa tem somente o que precisa para estar, circundada de cadeiras, fazendo parte da vida familiar entre alimentos, flores e conversa. Escura mesa gravemente muda que, parecendo alheia a quanto a cerca, encerra no silêncio toda a ciência da idade desdobrando gerações. olho de cerne, comovido e frio! indiferente coração parado entre o grito infantil e o olhar cansado. Mistério de madeira rodeado por cadeiras, lembranças, utensílios, e um leve odor de tempo alimentício. (Rosa de Esperança / 950) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Bandeira Tribuzi Ordem do dia Há que remover a neve desta folha de papel! Breve escutaremos o motor dos sentimentos enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo os sulcos onde caem as sementes da Emoção. Na vasta planície desvirginada germina já o pólen da lírica. Um vento de humana condição (oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos esta lavoura mental. Como bom descendente de um povo de camponeses medes o rigor da semeadura, sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão... Pão sonoro! De repente, as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado, rompem vôo para o céu de tua inteligência e desfecham seu canto maravilhoso contra tua surpresa. Teu coração é a corda do violino! Eis a geração do poema: sua mecânica, seu plantio, sua colheita. Estás diante de uma safra eterna! (Safra / 1960) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Bandeira Tribuzi O homem em pele e osso A pele é superfície, os ossos são entranha. A pele é o que se vê, os ossos o que escapa. A pele é uma casca, os ossos uma safra. A pele é entrega, o osso é arma. A pele é palma, o osso é clava. A pele é a pintura, os ossos são a casa. A pele é o acidente, o osso o permanente. A pele são as nuvens, os ossos são a água. A pele são os musgos, os ossos são as montanhas. A pele é o agora, os ossos são milênios. A pele é um orvalho, os ossos são invernos. (Pele & Osso / 1970) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Bandeira Tribuzi Romanceiro da cidade de São Luís PRÉ-HISTÓRIA Na solidão do chão sem tempo há uma ilha de expectativa, entre dois rios, como braços, suavemente recolhida. Verdes copas e o vento nelas e os cachos das frutas nativas e as alvas coxas de suas praias ao sol do trópico estendidas. Vizinho o mar com sua espuma, seu horizonte imaculado, com sua raiva e sua ânsia, com seu verde pulmão salgado, misturando sua maresia com o acre cheio do mato. Vizinho o mar com seu mistério e o além por ser desvendado. o mar de onde, por milênios, tudo que vem é rumor longo, surdo ou cavo, manso ou severo, cantochão grave, som redondo contra pedras, conchas, areias, interminável apelo em som do horizonte que não revela o mistério profundo e abscôndito. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Bandeira Tribuzi Imagem Vista do mar, a cidade, subindo suas ladeiras, parece humilde presépio levantado por mãos puras: nimbada de claridade, ponteia velhos telhados com as torres das igrejas e altas copas de palmeiras. Seus dois rios, como braços cingem-lhe a doce figura. Sobre a paz de sua imagem flui a música do tempo, cresce o musgo dos telhados e a umidade das paredes escorre pelos sobrados o amargo sal dos invernos. Tudo é doce e até parece que vemos só o animado contorno de iluminura e não a realidade: vista do mar, a cidade parece humilde presépio levantado por mãos puras e em sua simplicidade esconde glórias passadas, sonha grandezas futuras. ............................................... (In Poesias Completas / 1979) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *