Luís Antonio Cajazeira Ramos Soneto Áspero (poema augusto / poesia dos anjos) Noite de natal, e o mundo é piedoso. Eu, estou só, no quarto de dormir. A intermitente (ano não, dia sim) bondade e caridade é-me demais. Um papai-noel pousou-me na sorte, e eu lhe disse, então: - Buuh, você é um saco! Todos são felizes (na solidão, eu velo o fim da neve de algodão). Cheguei até aqui vivo - não sei se sou melhor ou sou pior por isso. Apenas, eu cheguei. De qualquer jeito, hoje sei se ontem amei: não amei. Burocraticamente, amei amém. (Nisso, cheguei ao limite do spray.) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Soneto Patético Acordo para um mundo novo no jornal. Notícias junto ao hálito acre da manhã. Espreguiçadamente explode a realidade. O sonho se desfaz nas cores do papel. Refaço o mundo com exercício matinal. Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã. Precipito-me às ruas e ganho a cidade. Refugio-me no trabalho - há paz como um véu. As horas vão... e a tarde cinza fica escura. O dia chega compassadamente ao fim. A vida, que gritava, agora só murmura. Tranco-me em casa, e o mundo sangra na TV. Sangue do meu sangue, tudo se esvai. Enfim, durmo, não sei quem te viu, não sei quem me vê. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Angústia Precipícia Como posso estar só, se estou sempre comigo? Minha ausência é a presença que tanto persigo. Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo pra tentar escapar do desgosto em que vivo. Tenho lágrimas metafísicas - eu sei que há muito que não choro, desde que gostei, há pouco, quando alguém me disse que não vem mais agora, e agora eu não quero mais ninguém. Queria a solidão mais rústica e absorta, como um coral num mar sem onda que o revolva - e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta... Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo, como um coral num mar sem fim - e eu, sem desejo, sem revolta, sem nada que me traga apego. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Memórias da Casa dos Mortos Mais parece um túmulo esse meu corpo de pedra. Túmulo de tantas sensações. Pedra sem vida - pedra. Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra. Túmulo de tantas paixões. Pedra sem amor - pétrea. Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra. Túmulo de tantas idéias. Pedra sem razão - petrificada. Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides, levei uma pedrada, e o único sangue possível foi a palavra. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Soneto Contemporâneo Aos coeternos. Penetra surdamente no reino das palavras, que outro valor mais alto se alevanta. Drummond/Camões Que vem a ser fazer poesia de seu tempo? Eu faço a do momento, a poesia de hoje. Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje. Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo. Hoje é sempre o momento de fazer poesia. Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje? Meteorologia e calendário não, hoje. Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia. De hoje que Camões é de hoje também! Carlos Drummond de Andrade é de hoje também. Todos são de hoje, destacados do tempo. Não me venham com necessidade de ser linguagem nova, tudo novo, tudo a ser, pois na poesia estou destacado do tempo. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Nunca Mais Serei Eu Mesmo Cada último poema é o último, pois nada há mais a dizer depois, pra nunca mais, que sempre, se me entrego ao verso, é totalmente - mais nada sobra em mim, vazado, mais que sempre. Toda em cada verso, a poesia (que mistério) nunca se esgota ou esvai, pois, com seu próprio lastro, está pra sempre inteira, pronta a um novo verso - e cada novo poema é o novo! ... e eu sou o resto. Se me dou por inteiro, o que sobra de mim? Se me fluí no verso, perdi-me de vez... - vez que, na alma do verso, só está quem o lê. Sendo assim (que destino, esse meu!), pra me ter, devo ler-me a mim mesmo no verso que fiz - eu, que tenho essa imensa poesia a viver!... * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Entre o Sono e a Vigília (soneto sonolento, ao dormir) Na indolência do tempo, as horas morrem, a madrugada avança seu crepúsculo, um silêncio selvagem rasga o mundo, e a vigília se abriga sob as pálpebras. Um frio silente e aflito, quase um susto, tão lépido quão lívido, perpassa, que a imensidão do instante se revela, e os abraços desfazem-se inconclusos. Entre luzes e sombras vacilantes, o assombro de mil séculos desvai-se, e o espírito gazeia e se dissipa. No espasmo mais recôndito do sonho, o pássaro se furta da gaiola, e o gato esconde o pulo entre almofadas. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Luz e Breu (soneto sonolento, ao acordar) Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias da cortina, eu percebo a escuridão de tudo sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo invade a solidão e rouba ao sonho a vida. Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília, não há nada a versar, pois que já testa a língua o amargo amanhecer para um poema roto. Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga sob os meus olhos, livre e plena de sentidos, embora nem eu saiba o que isto significa. À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo: se este verso pudesse, enfim, levar-me além de mim, a escuridão saciaria o desejo. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos A Estrela de Davi (salmo do bom pastor) A estrela de Davi me ilumina a cada entardecer, no crepúsculo, quando há escuridão nas esquinas, e a noite cai num véu que é só luto. A estrela de que falo é do mar, achada por Davi nas areias onde ele se deitou, a sonhar com as ondas que sopravam sereias. O menino Davi, de quem falo, é o bom filho de Sara. Tão raro alguém ser bom assim: deu-me a estrela! E a estrela de Davi me ilumina, pois ela é tal e qual lamparina, se lhe enfio dentro, acesa, uma vela. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Deus e o Diabo (no círculo vicioso da terra do sol) Virou-se o diabo pra deus e disse: - Quem sou eu, demônios! se não sou deus? E deus, bondoso, respondeu, qual prece: - Oh, céus! você é o que não quero meu. O demo, esperto, retrucou, de pronto: - Que não sou deus? que me fizeste resto de ti? deixaste todo o mal pra mim? Pronto, que o resto, em mim, te diminui. Potência, ciência e presença, em ti, não são totais, tu não és mais perfeito ... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito. Mas deus se arrependeu e, desde então, corre atrás do diabo, feito um cão caçando o rabo... (E o cão diz: - Nem te ligo!) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Anátema Vogo na idéia vaga e vã do eu, como se houvesse em mim um ser e um cerne, uma alma inominada, em corpo inerme, amálgama de fiat lux et breu. Mimo a mim mesmo com um mimoso engano: que o mundo existe como um fato meu; que a vida é a imagem de ilusório véu, tecido por mim (fio) o mundo (pano). Fio-me que penso e existo e assim sou algo; desfio meus véus, em busca de meu âmago, mas desconfio que apenas seja imago... Meu sumo é um oco totem hamletiano. Do imane e ameno cenho, emana a senha: a senda é ser não sendo (ou seja eu sonho). * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos O Jogo das Contas de Vidro Aos poetas que li. Qual alvo tisne, a lua tinge a noite em tons argênteos, grises, plúmbeos, brancos. A escuridão se esquina e cinge os flancos, mal traçando o recanto em que se acoite. O luar, com mãos de seda, audácia e zelo, retira à noite o véu que a cobre espúrio; e ilumina, de lilás a purpúreo, tudo o que ao sol vai do azul ao vermelho. À lua, o chão rural é mais bucólico e o mundo urbano é um tanto mais insólito do que revelam ser à luz do sol? Talvez... Assim, qual lua, sem luz própria, do corpo da poesia o poeta é cópia - sinal especulado do farol. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos O Canto do Cisne Quando me vi no instante derradeiro, a musa das vontades (ela existe!), num tom que é quase sempre terno e triste, ofereceu-me o último desejo. Não sei dizer que brumas me envolveram nas lembranças de amores que não tive. Que saudade me deu!... Desde as raízes, degredos mal guardados soergueram. Momento de magia e plenitude, fremi no ardor de lívidos enlevos; meu sonho se elevou que a mais nem pude. Qual desejo matar?... Qual liberdade?... Ó musa maga! música sem medos! Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Fiat Breu Há pouco, fui brilhante. Agora, brilho escapante, ou escapadamente lusco e fusco, ou busco um instante qualquer, tropegamente. Tão-somente, já não brilho intensamente, como há poucos instantes atrás. Escapou-me o brilho reluzente do primeiro instantâneo flash de verídicas meta-observações, que me conduziam a conclusões deveras geniais, tal como eu fosse capaz, um tanto mais perceptivo para os tempos atuais. Mas sou por demais insistente e escrevo, sofregamente, tentando segurar aquele flash, capaz de dar-me luz de iluminação, capaz de trazer-me compreensão de densos organismos universais e de mim mesmo, principalmente. Mas é tudo um delírio, ao final do que se escreve, já sem brilho, tão breve... mas já sem grilo, já leve, até capaz de fazer-me sorrir. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos Breu em Chamas A não ser pelo fato de ser meu melhor amigo, você não me conhece. Ninguém me conhece. Mas cê está tão perto! Desde ontem que o olho há horas para sempre, e você nem percebe o quanto estou distante... eu dentro de meu próprio ventre. São quilômetros de distâncias milimétricas que nos separam, eu e meu ventre, do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado. E eu não vejo mais emoções dentro de qualquer ventre, pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho, deitou em minha cama e dormiu, fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Luís Antonio Cajazeira Ramos (Poema Inédito) Canto de Sereia A Propósito de Lágrima Súbita Da face do prazer, surgiu a lágrima, como se fora mágica o viver. Do riso e da alegria, veio o pranto - testemunha de um canto de poesia. Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota singelamente solta, assim... caminha por sobre o corpo nu, livre de obstáculo - só dor! - sem sustentáculo nenhum... Vem do mar uma brisa de carícia que beija sem malícia a pele e criva em sal a solidão deste mergulho... No solitário pulo, uma fusão de lágrimas do rio com o vasto mar, num encontro invulgar de dor e cio...