A HARPA DO CRENTE - ALGUNS POEMAS DEUS Nas horas de silêncio, à meia-noite, Eu louvarei o Eterno! Ouçam-me a terra, e os mares rugidores, E os abismos do Inferno. Pela amplidão dos céus meus cantos soem, E a Lua resplendente Pare em seu giro, ao ressoar nest'harpa O hino do Omnipotente. Antes de tempo haver, quando o infinito Media a eternidade, E só do vácuo as solidões enchia De Deus a imensidade, Ele existia, em sua essência envolto, E fora dele o nada: No seio do criador a vida do homem Estava ainda guardada; Ainda então do mundo os fundamentos Na mente se escondiam De Jeová, e os astros fulgurantes Nos céus não se volviam. Eis o Tempo, o Universo, o Movimento Das mãos solta o Senhor. Surge n Sol, banha a Terra, desabrocha Nesta a primeira flor; Sobre o invisível eixo range o globo; O vento o bosque ondeia; Retumba ao longe o mar; da vida a força A natureza anseia! Quem, dignamente, ó Deus, há-de louvar-Te, Ou cantar Teu poder? Quem dirá de Teu braço as maravilhas, Fonte de todo o ser, No dia da Criação; quando os tesouros Da neve amontoaste; Quando da Terra nos mais fundos vales As águas encerraste?! E eu onde estava. quando o Eterno os mundos, Com dextra poderosa, Fez, por lei imutável, se livrassem Na mole ponderosa? Onde existia então ? No tipo imenso Das gerações futuras; Na mente do meu Deus. Louvor a Ele Na Terra e nas alturas! Oh, quanto é grande o rei das tempestades, Do raio, e do trovão! Quão grande o Deus, que manda, em seco estio, Da tarde a viração! Por Sua providência nunca, embalde, Zumbiu mínimo insecto; Nem volveu o elefante, em campo estéril, Os olhos inquieto. Não deu Ele à avezinha o grão da espiga, Que ao ceifador esquece: Do norte ao urso o sol da Primavera, Que o reanima e aquece? Não deu Ele à gazela amplos desertos, Ao certo a amena selva, Ao flamingo os pauis, ao tigre o antro, No prado ao touro a relva? Não mandou Ele ao mundo, em luto e trevas, Consolação e luz? Acaso em vão algum desventurado Curvou-se aos pés da Cruz? A quem não ouve Deus? Somente ao ímpio No dia da aflição, Quando pesa sobre ele, por seus crimes. Do crime a punição. Homem, ente imortal, que és tu perante A face do Senhor? És a junça do brejo, harpa quebrada Nas mãos do trovador! Olha o velho pinheiro, campeando Entre as neves alpinas: Quem irá derribar o rei dos bosques Do trono das colinas? Ninguém! Mas ai do abeto, se o seu dia Extremo Deus mandou! Lá correu o aquilão: fundas raízes Aos ares lhe assoprou. Soberbo, sem temor, saiu na margem Do caudaloso Nilo, O corpo monstruoso ao sol voltando, Medonho crocodilo. De seus dentes em roda o susto habita: Vê-se a morte assentada Dentro em sua garganta, se descerra A boca afogueada: Qual duro arnês de intrépido guerreiro É seu dorso escamoso; Como os últimos ais de um moribundo Seu grito lamentoso: Fumo e fogo respira quando irado; Porém, se Deus mandou, Qual do norte impelida a nuvem passa, Assim ele passou! Teu nome ousei cantar! Perdoa, ó Nume; Perdoa ao teu cantor! Dignos de ti não são meus frouxos hinos, Mas são hinos de amor. Embora vis hipócritas te pintem Qual bárbaro tirano: Mentem, por dominar com férreo ceptro O vulgo cego e insano. Quem os crê é um ímpio! Recear-te É maldizer-te, ó Deus; É o trono dos déspotas da Terra Ir colocar nos Céus. Eu, por mim, passarei entre os abrolhos Dos males da existência Tranquilo, e sem temor, à sombra posto Da Tua Providência. A ARRÁBIDA I Salve, ó vale do sul, saudoso e belo! Salve, ó pátria da paz, deserto santo, Onde não ruge a grande voz das turbas! Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo O poeta fugir, cingir-se ao ermo, Qual ao freixo robusto a frágil hera, E a romagem do túmulo cumprindo, Só conhecer, ao despertar na morte, Essa vida sem mal, sem dor, sem termo, Que íntima voz contínuo nos promete No trânsito chamado o viver do homem. II Suspira o vento no álamo frondoso; As aves soltam matutino canto; Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra Dos alcantis na base carcomida: Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro, Insondado oceano, e o céu cerúleo Se abraçam no horizonte. Imensa imagem Da eternidade e do infinito, salve! III Oh, como surge majestosa e bela, Com viço da criação, a natureza No solitário vale! E o leve insecto E a relva e os matos e a fragrância pura Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os há lançado, Com mão profusa, no regaço ameno Da solidão, onde se esconde o justo. E lá campeiam no alto das montanhas Os escalvados píncaros, severos, Quais guardadores de um lugar que é santo; Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o último abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de lábios inocentes. Sobre esta cena o sol verte em torrentes Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se Pelos rosmaninhais, e inclina os topos Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados Desses tronos de fragas sobrepostas, Que alpestres matas de medronhos vestem; O rocio da noite à branca rosa No seio derramou frescor suave, E inda existência lhe dará um dia. Formoso ermo do sul, outra vez, salve! IV Negro, estéril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o plácido sussurro Das árvores do vale, que vicejam Ricas d'encantos, coa estação propícia; Suavíssimo aroma, que, manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solidão subindo aos ores, És digno incenso ao Criador erguido; Livres aves, filhas da espessura, Que só teceis da natureza as hinos, O que crê, o cantor, que foi lançado, Estranho no mundo, no bulício dele, Vem saudar-vos, sentir um gozo puro, Dus homens esquecer paixões e opróbio, E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O Sol, e uma só vez puro saudar-lha. Convosco eu sou maior; mais longe a mente dos céus se imerge livre, E se desprende de mortais memórias Na solidão solene, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa A dextra sua em multiforme quadro. V Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Ruína ao roble secular da encosta, Que sonolento move a coma estiva Ante a aragem do mar, foste formoso; Já te cobriram cespedes virentes; Mus o tempo voou, e nele envolta A formosura tua. Despedidos Das negras nuvens o chuveiro espesso E o granizo, que o solo fustigando Tritura u tenra lanceolada relva, Durante largos séculos, no Inverno, Dos vendavais no dorso a ti desceram. Qual amplexo brutal de ardos grosseiro, Que, maculando virginal pureza. Do pudor varre a auréola celeste, E deixa, em vez de um serafim m Terra, Queimada flor que devorou o raio. VI Caveira da montanha, ossada imensa, É tua campa o Céu: sepulcro o vale Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a Terra ao longe, Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo, Lançar à praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te De sobre si, o fundo deste vale Te vai servir de túmulo; e os carvalhos Do mundo primogénitos, e os sobros, Arrastados por ti lá da colina, Contigo hão-de jazer. De novo a terra Te cobrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lírios, Do seu puro candor hão-de adornar-te; E tu, ora medonho e nu e triste, Ainda belo serás, vestido e alegre. VII Mais que o homem feliz! Quando eu no vale Dos túmulos cair; quando uma pedra Os ossos me esconder, se me for dada, Não mais reviverei; não mais meus olhos Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo, Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam Pelo extremo dos céus sobre o ocidente. Vai provar que um Deus há o estranhos povos E além das ondas trémulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Não mais verei o refulgir da Lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que vela o criminoso, A quem íntima voz rouba o sossego. E em que o justo descansa, ou, solitário, Ergue ao Senhor um hino harmonioso. VIII Ontem, sentado num penhasco, e perto Dos águas, então quedas, do oceano, Eu também o louvei sem ser um justo: E meditei, e a mente extasiada Deixei correr pela amplidão das ondas. Como abraço materno era suave A aragem fresca do cair das trevas. Enquanto, envolta em glória, a clara Lua Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas. Tudo calado estava: o mar somente As harmonias da criação soltava, Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto Se agitava, gemendo e murmurando. Ante o sopro de oeste: ali dos olhos O pranto me correu, sem que o sentisse. E aos pés de Deus se derramou minha alma. IX Oh, que viesse o que não crê, comigo, À vicejante Arrábida de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movediças ramas, que povoa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espaço opresso de astros, E ouvisse o mar soando: - ele chorara, Qual eu chorei, as lágrimas do gozo, E, adorando o Senhor, detestaria De uma ciência vã seu vão orgulho. X É aqui neste vale, ao qual não chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O coração, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da pátria ao desterrado; aqui, solene, Brada a montanha, memorando a morte. Essas penhas, que, lá no alto das serras Nuas, crestadas, solitárias dormem, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancólico e o repouso Tão desejado do que em Deus confia. Bem semelhante à paz. que se há sentado Por séculos, ali, nas cordilheiras É o silêncio do adro, onde reúnem Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra. Como tu vens cercado de esperança, Para o inocente, ó plácido sepulcro! Junto das tuas bordas pavorosas O perverso recua horrorizado: Após si volve os olhos; na existência Deserto árido só descobre ao longe. Onde a virtude não deixou um trilho. Mas o justo, chegando à meta extrema, Que separa de nós a eternidade, Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.. O infeliz e o feliz lá dormem ambos, Tranquilamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueou na Terra, Sem encontrar um coração ardente Que o entendesse, a pátria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras Vierem junto às cinzas colocar-lhe Tardios louros, que escondera a inveja, Ele não erguerá a mão mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justiça, glória, amor, saudade, tudo, An pé da sepultura, é som perdido De harpa eólia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pai, que saboreia Entre os bruços da morte o extremo sono, Já não é dado ao filial suspiro; Em vão o amante, ali, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruçado, Rega de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria. E para sempre as flores se murcharam. XI Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma, Aspirando o futuro além da vida E um hálito dos Céus, gemer atada À coluna do exílio, a que se chama Em língua vil e mentirosa o mundo. Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guardá-la-ei no coração, bem junto Com minha fé, meu único tesouro. Qual pomposo jardim de verme ilustre, Chamado rei ou nobre, há-de contigo Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce Em vaso de alabastro a flor cativa, Ou árvore educada por mão de homem, Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro E lhe decepe os troncos. Como é livre A vaga do oceano, é livre no ermo A bonina rasteira ou freixo altivo! Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças». Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou: se a flor pendida murcha, É que o rocio não desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida. Céu livre, Terra livre, e livre a mente, Paz íntima, e saudade, mas saudade Que não dói, que não mirra, e que consola, São as riquezas do ermo, onde sorriem Das procelas do mundo os que o deixaram. XII Ali naquela encosta, ontem de noite, Alvejava por entre os medronheiros Do solitário a habitação tranquila: E eu vagueei por lá. Patente estava O pobre albergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperança Sob as asas de Deus, à luz dos astros, Em leito, duro sim, não de remorsos. Oh, com quanto sossego o bom do velho Dormia! A leve aragem lhe ondeava As raras cãs na fronte, onde se lia A bela história de passados anos. De alto choupo através passava um raio Da Lua - astro de paz, astro que chama Os olhos para o céu, e a Deus a mente - E em luz pálida as faces !he banhava: E talvez neste raio o Pai celeste Da pátria eterna, lhe enviava a imagem, Que o sorriso dus lábios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e glória Na Terra de antemão o consolasse. E eu comparei o solitário obscuro Ao inquieto filho das cidades: Comparei o deserto silencioso Ao perpétuo ruído que sussurra Pelos palácios do abastado e nobre, Pelos paços dos reis; e condoí-me Do cortesão soberbo, que só cura De honras, haveres, glória, que se compram Com maldições e perenal remorso. Glória! A sua qual é? Pelas campinas, Cobertas de cadáveres, regadas De negro sangue, ele segou seus louros; Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva Ao som do choro da viúva e do órfão; Ou, dos sustos senhor, em seu delírio, Os homens, seu irmãos, flagela e oprime. Lá o filho do pó se julga um nume, Porque a Terra o adorou; o desgraçado Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros Nunca se há-de chegar para tragá-lo Ao banquete da morte, imaginando Que uma lájea de mármore, que esconde O cadáver do grande, é mais durável Do que esse chão sem inscrição, sem nome. Por onde o opresso, o mísero, procura O repouso, e se atira aos pés do trono Do Omnipotente, a demandar justiça Contra os fortes do mundo, os seus tiranos. XIII Ó cidade, cidade, que transbordas De vícios, de paixões e de amarguras! Tu lá estás, na tua pompa envolta, Soberba prostituta, alardeando Os teatros, e os paços, e o ruído Das carroças dos nobres recamadas De ouro e prata, e os prazeres de uma vida Tempestuosa, e o tropear contínuo Dos férvidos ginetes, que alevantam O pó e o lodo cortesão das praças; E as gerações corruptas de teus filhos Lá se revolvem, qual montão de vermes Sobre um cadáver pútrido! Cidade, Branqueado sepulcro, que misturas A opulência, a miséria, a dor e o gozo, Honra e infâmia, pudor e impudícia Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória Da humanidade? O que o souber que o diga! Bem negra avulta aqui, na paz do vale, A imagem desse povo, que reflui Das moradas à rua, à praça, ao templo; Que ri, e chora, folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo misto de baixeza extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos pés de um vil déspota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memórias dos séculos que foram, E depois sobre o nada adormecendo. Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se Em joelhos nos átrios dos tiranos. Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre ? Esse tigre é o ídolo do povo! Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe O férreo ceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De vítimas ilustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente Em seus terrores o senhor das turbas. Passai depois. Se a mão da Providência Esmigalhou a fronte à tirania; Se o déspota caiu, e está deitado No lodaçal da sua infâmia, a turba Lá vai buscar o ceptro dos terrores, E diz: «É meu»; e assenta-se na praça, E envolta em roto manto. e julga, e reina. Se um ímpio, então, na afogueada boca De vulcão popular sacode um facho, Eis o incêndio que muge, e a lava sobe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas além: clamor retumba De anarquia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presságio De assolação, e se amontoam vagas Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernais hinos Cava fundo da Pátria a sepultura, Onde, abraçando a glória do passado E do futuro a última esperança, As esmaga consigo, e ri morrendo. Tal és, cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paços sumptuosos, Teu ouro, teu poder: sentina impura De corrupções, teus não serão meus hinos! XIV Cantor da solidão, vim assentar-me Junto do verde céspede do vale, E a paz de Deus do mundo me consola. Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou há séculos, passando, Como orvalho do céu, por este sítio, De virtudes depois tão rico e fértil. Como um pai de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vão cercando Os tugúrios de humildes eremitas, Onde o cilício e a compunção apagam Da lembrança de Deus passados erros Do pecador, que reclinou a fronte Penitente no pó. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que expirando perdoava, o Justo, Que entre os humanos não achou piedade. XV Religião! do mísero conforto, Abrigo extremo de alma, que há mirrado O longo agonizar de uma saudade. Da desonra, do exílio, ou da injustiça, Tu consolas aquele, que ouve o Verbo. Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraça no dia ajoelharam No limiar do solitário templo. Ao pé desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia à meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Aí os viu ao despontar do dia, Sob os raios do Sol, ainda chorando, Passados meses, o burel grosseiro, O leito de cortiça, e a fervorosa E contínua oração foram cerrando Nos corações dos míseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. Aqui, depois, qual hálito suave. Da Primavera, lhes correu a vida, Até sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lájea tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no sono extremo. Eremitério antigo, oh, se pudesses Dos anos que lá vão contar a história; Se ora, à voz do cantor, possível fosse Transudar desse chão, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por náufragos do mundo derramado Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis, Broncas pedras, falar, o que diríeis! Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fábula das gentes. Despertariam o eco das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a história Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da mágoa, ou do remorso, as longas noites! Aqui veio, talvez, buscar asilo Um poderoso, outrora anjo da Terra, Despenhado nas trevas do infortúnio; Aqui gemeu, talvez, o amor traído, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero; aqui soaram Do arrependido os últimos gemidos, Depois da vida derramada em gozos, Depois do gozo convertido em tédio. Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra Vestidura mortal, deixou vestígios De seu breve passar. E isso que importa, Se Deus o viu; se as lágrimas do triste Ele contou, para as pagar com glória? XVI Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda Que serpeia do monte ao fundo vale, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um farol de vida em mar de escolhos: Ao cristão infeliz acolhe no ermo. E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua É lá no Céu: abraça-te comigo.» Junto dela esses homens, que passaram Acurvados na dor, as mãos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que é conforto Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança Vêm derramar seu coração aflito: É do deserto a história, a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silêncio. XVII Feliz da Terra, os monges não maldigas; Do que em Deus confiou não escarneças: Folgando segue a trilha, que há juncado, Para teus pés, de flores a fortuna. E sobre a morta crença em paz descansa. Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te O que ensanguenta os pés no tojo agreste, E sobre a fria pedra encosta a fronte? Que mal te faz uma oração erguida, Nas solidões, por voz sumida e frouxa, E que, subindo aos Céus, só Deus escuta? Oh, não insultes lágrimas alheias, E deixa a fé ao que não tem mais nada!... E se estes versos te contristam, rasga-os. Teus menestréis te venderão seus hinos, Nos banquetes opíparos, enquanto O negro pão repartirá comigo, Seu trovador, o pobre anacoreta, Que não te inveja as ditas, como as c'roas Do prazer ao cantor eu não invejo; Tristes coroas, sob as quais às vezes Está gravada uma inscrição d'infâmia. A TEMPESTADE Sibila o vento: os torreões de nuvens Pesam nos densos ares: Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas Pela extensão dos mares: A imensa vaga ao longe vem correndo Em seu terror envolta; E, dentre as sombras, rápidas centelhas A tempestade solta. Do sol no ocaso um raio derradeiro, Que, apenas fulge, morre, Escapa à nuvem, que, apressada e espessa, Para apagá-lo corre. Tal nos afaga em sonhos a esperança, Ao despontar do dia, Mas, no acordar, lá vem a consciência Dizer que ela mentia! As ondas negro-azuis se conglobaram; Serras tornadas são, Contra as quais outras serras, que se arqueiam, Bater, partir-se vão. Ó tempestade! Eu te saúdo, ó nume Da natureza açoite! Tu guias os bulcões, do mar princesa, E é teu vestido a noite! Quando pelos pinhais, entre o granizo, Ao sussurrar das ramas, Vibrando sustos, pavorosa ruges E assolação derramas, Quem porfiar contigo, então, ousara De glória e poderio; Tu que fazes gemer pendido o cedro, Turbar-se o claro rio? Quem me dera ser tu, por balouçar-me Das nuvens nos castelos, E ver dos ferros meus, enfim, quebrados Os rebatidos elos. Eu rodeara, então o globo inteiro; Eu sublevara as águas; Eu dos vulcões com raios acendera Amortecidas fráguas; Do robusto carvalho e sobro antigo Acurvaria as frontes; Com furacões, os areais da Líbia Converteria em montes; Pelo fulgor da Lua, lá do norte No pólo me assentara, E vira prolongar-se o gelo eterno, Que o tempo amontoara. Ali, eu solitário, eu rei da morte, Erguera meu clamor, E dissera: «Sou livre, e tenho império; Aqui, sou eu senhor!» Quem se pudera erguer, como estas vagas, Em turbilhões incertos, E correr, e correr, troando ao longe, Nos líquidos desertos! Mas entre membros de lodoso barro A mente presa está!... Ergue-se em vão aos céus: precipitada, Rápido, em baixo dá. Ó morte, amiga morte! é sobre as vagas, Entre escarcéus erguidos, Que eu te invoco, pedindo-te feneçam Meus dias aborridos: Quebra duras prisões, que a natureza Lançou a esta alma ardente; Que ela possa voar, por entre os orbes, Aos pés do Omnipotente. Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem Desça, e estourando a esmague, E a grossa proa, dos tufões ludíbrio, Solta, sem rumo vague! Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam O sono do existir; Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças Nas trevas do porvir. Doce mãe do repouso, extremo abrigo De um coração opresso, Que ao ligeiro prazer, à dor cansada Negas no seio acesso, Não despertes, oh não! os que abominam Teu amoroso aspeito; Febricitantes, que se abraçam, loucos, Com seu dorido leito! Tu, que ao mísero ris com rir tão meigo, Caluniada morte; Tu, que entre os braços teus lhe dás asilo Contra o furor da sorte; Tu, que esperas às portas dos senhores, Do servo ao limiar, E eterna corres, peregrina, a terra E as solidões do mar, Deixa, deixa sonhar ventura os homens; Já filhos teus nasceram: Um dia acordarão desses delírios, Que tão gratos lhes eram. E eu que velo na vida, e já não sonho Nem glória nem ventura; Eu, que esgotei tão cedo, até às fezes, O cálix da amargura: Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado De quanto há vil no mundo, Santas inspirações morrer sentindo Do coração no fundo, Sem achar no desterro uma harmonia De alma, que a minha entenda, Porque seguir, curvado ante a desgraça, Esta espinhosa senda? Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa Fragor da tempestade, Salmo de mortos, que retumba ao longe, Grito da eternidade!... Pensamento infernal! Fugir covarde Ante o destino iroso? Lançar-me, envolto em maldições celestes, No abismo tormentoso? Nunca! Deus pôs-se aqui para apurar-me Nas lágrimas da terra; Guardarei minha estância atribulada, Com meu desejo em guerra. O fiel guardador terá seu prémio, O seu repouso, enfim, E atalaiar o sol de um dia extremo Virá outro após mim. Herdarei o morrer! Como é suave Bênção de pai querido. Será o despertar, ver meu cadáver, Ver o grilhão partido. Um consolo, entretanto, resta ainda Ao pobre velador: Deus lhe deixou, nas trevas da existência, Doce amizade e amor. Tudo o mais é sepulcro branqueado Por embusteira mão; Tudo o mais vãos prazeres que só trazem Remorso ao coração. Passarei minha noite a luz tão meiga, Até o amanhecer; Até que suba à pátria do repouso, Onde não há morrer. A VITÓRIA E A PIEDADE I Eu nunca fiz soar meus pobres cantos Nos paços dos senhores! Eu jamais consagrei hino mentido Da terra dos opressores. Mal haja o trovador que vai sentar-se À porta do abastado, O qual com ouro paga a própria infâmia, Louvor que foi comprado. Desonra àquele, que ao poder e ao ouro Prostitui o alaúde! Deus à poesia deu por alvo a pátria, Deu a glória e a virtude. Feliz ou infeliz, triste ou contente, Livre o poeta seja, E em hino isento a inspiração transforme Que na sua alma adeja. II No despontar da vida, do infortúnio Murchou-me o sopro ardente; E saudades curti em longes terras Da minha terra ausente. O solo do desterro, ai, quanto ingrato É para o foragido, E nevoado o céu, árido o prado, O rio adormecido! E lá chorei, na idade da esperança, Da pátria a dura sorte; Esta alma encaneceu; e antes de tempo Ergueu hinos à morte; Que a morte é para o mísero risonha, Santa da campa a imagem Ali é que se aferra o porto amigo, Depois de árdua viagem. III Mas quando o pranto me sulcava as faces, Pranto de atroz saudade, Deus escutou do vagabundo as preces, Dele teve piedade. «Armas», bradaram no desterro os fortes, Como bradar de um só: Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os Indissolúvel nó. Com seus irmãos as sacrossantas juras, Beijando a cruz da espada, Repetiu o poeta: «Eia, partamos! Ao mar!» Partia a armada, Pelas ondas azuis correndo afoutos, As praias demandámos Do velho Portugal, e o balção negro Da guerra despregámos; De guerra em que era infâmia o ser piedoso, Nobreza o ser cruel, E em que o golpe mortal descia envolto Das maldições no fel. IV Fanatismo brutal, ódio fraterno, De fogo céus toldados, A fome, a peste, o mar avaro, as turbas De inúmeros soldados; Comprar com sangue pão, com sangue o lume Em regelado Inverno; Eis contra o que, por dias de amargura, Nos fez lutar o Inferno. Mas de fera vitória, enfim, colhemos A c'roa de cipreste; Que a fronte ao vencedor em ímpia luta Só essa c'roa veste. Como ela torvo, soltarei um hino Depois do triunfar. Oh, meus irmãos, da embriaguez da guerra Bem triste é o acordar! Nessa alta encosta sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canhão troou por mais de um ano Contra invencíveis muros, Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me, Pedir inspirações À noite queda, ao génio que me ensina Segredos das canções. V Reina em silêncio a lua; o mar não brame, Os ventos nem bafejam; Rasas co'a terra, só nocturnas aves Em giros mil adejam. No plaino pardacento, junto ao marco Tombado, ou rota sebe, Aqui e ali, de ossadas insepultas O alvejar se percebe. É que essa veiga, tão festiva outrora, Da paz tranquilo império, Onde ao carvalho a vide se enlaçava, É hoje um cemitério! VI Eis de esforçados mil inglórios restos, Depois de brava lida; De longo combater atroz memento Em guerra fratricida. Nenhum padrão recordará aos homens Seus feitos derradeiros. Nem dirá: - «Aqui dormem portugueses; Aqui dormem guerreiros.» Nenhum padrão, que peça aos que passarem Reza fervente e pia, E junto ao qual entes queridos vertam O pranto da agonia! Nem hasteada cruz, consolo ao morto; Nem lájea que os proteja Do ardente sol, da noite húmida e fria, Que passa e que roreja! Não! Lá hão-de jazer no esquecimento De desonrada morte, Enquanto, pelo tempo em pó desfeitos, Não os dispersa o norte. VII Quem, pois, consolará gementes sombras, Que ondeiam junto a mim? Quem seu perdão da Pátria implorar ousa, Seu perdão do Elohim? Eu, o cristão, o trovador do exílio, Contrário em guerra crua, Mas que não sei verter o fel da afronta Sobre uma ossada nua. VIII Lavradores, zagais, descem dos montes, Deixando terras, gados, Para as armas vestir, dos céus em nome, Por fariseus chamados. De um Deus de paz hipócritas ministros Os tristes enganaram: Foram eles, não nós, que estas caveiras Aos vermes consagraram. Maldito sejas tu, monstro do Inferno, Que do Senhor no templo, Junto da eterna Cruz, ao crime incitas, Dás do furor o exemplo! Sobre as cinzas da Pátria, ímpio, pensaste Folgar de nosso mal, E, entre as ruínas de cidade ilustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu coração incipiente, Disseste: - «Deus não há!» Ele existe, malvado; e nós vencemos: Treme; que tempo é já! IX Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos coma valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de inocentes. X Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores; Perdão, também, às cinzas de infelizes; Perdão, oh vencedores! Não insulteis o morto. Ele há comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignóbil, Sem dobre ou monumento. C tempo d'olvidar ódios profundos De guerra deplorável. O forte é generoso, e deixa ao fraco O ser inexorável. Oh, perdão para aquele a quem a morte No seio agasalhou! Ele é mudo: pedi-lo já não pode; O dá-lo a nós deixou. Além do limiar da eternidade Cl mundo não tem réus, O que levou à terra o pó da terra Julgá-lo cabe a Deus. E vós, meus companheiros, que não vistes Nossa triste vitória, Não precisais do trovador o canto: Vosso nome é da história. XI Assim, foi do infeliz sobre a jazida Que um hino murmurei, E, do vencido consolando a sombra, Por vós eu perdoei.