FOLHAS CAÍDAS DOS EDITORES Cumpre-se a promessa feita no primeiro volume desta colecção reunindo aqui, em segunda edição muito aumentada e correcta, as Folhas Caídas. Apesar de estarem no prelo desde 1851, o autor tinha descuidado na primeira edição o seu habitual escrúpulo de rever e corrigir; e não teve paciência para as aumentar com muitas peças que agora vão; e que então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais sérios o distraíam durante os dois anos que levaram a imprimir tão poucas páginas. Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim aumentado, ficaria demasiado para um só. Maio - 1853 LIVRO PRIMEIRO IGNOTO DEO (D. D. D.) Creio em ti, Deus: a fé viva De minha alma a ti se eleva. És: - o que és não sei. Deriva Meu ser do Teu: luz... e treva, Em que - indistintas! - se envolve Este espírito agitado, De ti vem, a ti devolve. O Nada, a que foi roubado Pelo sopro criador Tudo o mais, o há-de tragar. Só vive do eterno ardor O que está sempre a aspirar Ao infinito donde veio. Beleza és tu, luz és tu, Verdade és tu só. Não creio Senão em ti; o olho nu Do homem não vê na terra Mais que a dúvida, a incerteza, A forma que engana e erra. Essência! a real beleza, O puro amor - o prazer Que não fatiga e não gasta... Só por ti os pode ver O que inspirado se afasta, Ignoto Deo, das ronceiras, Vulgares turbas: despidos Das coisas vás e grosseiras Sua alma, razão, sentidos, A Ti se dão, em Ti vida, E por ti vida têm. Eu, consagrado A teu altar, me prostro e a combatida Existência aqui ponho, aqui votado Fica este livro - confissão sincera Da alma que a ti voou e em ti só spera. II ADEUS! Adeus, para sempre adeus! Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora Sinto a justiça dos céus Esmagar-me a alma que chora. Choro porque não te amei, Choro o amor que me tiveste; O que eu perco, bem no sei, Mas tu... tu nada perdeste; Que este mau coração meu Nos secretos escaninhos Tem venenos tão daninhos Que o seu poder só sei eu. Oh! vai... para sempre adeus! Vai, que há justiça nos céus. Sinto gerar a peçonha Do ulcerado coração Essa víbora medonha Que por seu fatal condão Há-de rasgá-lo ao nascer: Há-de sim, serás vingada, E o meu castigo há-de ser Ciúme de ver-te amada, Remorso de te perder. Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, Que sou eu capaz agora De te amar - Ai! se eu te amasse! Vê se no árido pragal Deste peito se ateasse De amor o incêndio fatal! - Mais negro e feio no inferno Não chameja o fogo eterno. Que sim? Que antes isso? - Ai, triste! Não sabes o que pediste. Não te bastou suportar O cepo-rei; impaciente Tu ousas a deus tentar Pedindo-lhe o rei-serpente! E cuidas amar-me ainda? Enganas-te: é morta, é finda, Dissipada é a ilusão. Do meigo azul de teus olhos Tanta lágrima verteste, Tanto esse orvalho celeste Derramado o viste em vão Nesta seara de abrolhos, Que a fonte secou. Agora Amarás... sim, hás-de amar, Amar deves... Muito embora... Oh! mas noutro hás-de sonhar Os sonhos de oiro encantados Que o mundo chamou amores. E eu réprobo... eu se o verei? Se em meus olhos encovados Der a luz de teus ardores... Se com ela cegarei? Se o nada dessas mentiras Me entrar pelo vão da vida... Se, ao ver que feliz deliras, Também eu sonhar... Perdida, Perdida serás - perdida. Oh! vai-te, vai, longe embora! Que te lembre sempre e agora Que não te amei nunca... ai! não; E que pude a sangue frio, Covarde, infame, vilão, Gozar-te - mentir sem brio, Sem alma, sem dó, sem pejo, Cometendo em cada beijo Um crime... Ai! triste, não chores, Não chores, anjo do céu, Que o desonrado sou eu. Perdoar-me tu?... Não mereço. A imundo cerdo voraz Essas pérolas de preço Não as deites: é capaz De as desprezar na torpeza De sua bruta natureza. Irada te há-de admirar, Despeitosa, respeitar, Mas indulgente... Oh! o perdão É perdido no vilão, Que de ti há-de zombar. Vai, vai... para sempre adeus! Para sempre aos olhos meus Sumido seja o clarão De tua divina estrela. Faltam-me olhos e razão Para a ver, para entendê-la: Alta está no firmamento Demais, e demais é bela Para o baixo pensamento Com que em má hora a fitei; Falso e vil o encantamento Com que a luz lhe fascinei. Que volte a sua beleza Do azul do céu à pureza, E que a mim me deixe aqui Nas trevas em que nasci, Trevas negras, densas, feias, Como é negro este aleijão Donde me vem sangue às veias, Este que foi coração, Este que amar-te não sabe Porque é só terra - e não cabe Nele uma ideia dos céus... Oh! vai, vai; deixa-me, adeus! III QUANDO EU SONHAVA Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar. Agora que estou desperto, Agora que a vejo fixar... Para quê? - Quando era vaga, Uma ideia, um pensamento, Um raio de estrela incerto No imenso firmamento, Uma quimera, um vão sonho, Eu sonhava - mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas a dor não na conhecia... ............................................. V O ANJO CAÍDO Era um anjo de Deus Que se perdera dos céus E terra a terra voava. A seta que lhe acertava Partira de arco traidor, Porque as penas que levava Não eram penas de amor. O anjo caiu ferido E se viu aos pés rendido Do tirano caçador. De asa morta e sem esplendor O triste, peregrinando Por estes vales de dor, Andou gemendo e chorando. Vi-o eu, n anjo dos céus, O abandonado de Deus, Vi-o, nessa tropelia Que o mundo chama alegria, Vi-o a taça do prazer Pôr ao lábio que tremia E só lágrimas beber. Ninguém mais na terra o via, Era eu só que o conhecia Eu que já não posso amar! Quem no havia de salvar? Eu, que numa sepultura Me fora vivo enterrar? Loucura! Ai, cega loucura! Mas entre os anjos dos céus Cantava um anjo ao seu Deus; E remi-lo e resgatá-lo, Daquela infâmia salvá-lo Só força de amor podia. Quem desse amor há-de amá-lo, Se ninguém o conhecia? Eu só, - e eu morto, eu descrido, Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz. Cravei-a eu nessa cruz Minha alma que renascia, Que toda em sua alma pus, E o meu ser se dividia, Porque ela outra alma não tinha, Outra alma senão a minha... Tarde, ai! tarde o conheci, Porque eu o meu ser perdi, E ele à vida não volveu... Mas da morte que eu morri Também o infeliz morreu. VIII ESTE INFERNO DE AMAR Este inferno de amar - como eu amo! - Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é a vida - e que a vida destrói - Como é que se veio a atear, Quando - ai quando se há-de ela apagar? Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez... - foi um sonho - Em que paz tão serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar? Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei; Mas nessa hora a viver comecei... X GOZO E DOR Se estou contente, querida, Com esta imensa ternura De que me enche o teu amor? - Não. Ai não; falta-me a vida; Sucumbe-me a alma à ventura: O excesso do gozo é dor. Dói-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou. Absorto em tua beleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou. É que não há ser bastante Para este gozar sem fim Que me inunda o coração. Tremo dele, e delirante Sinto que se exaure em mim Ou a vida - ou a razão. XVI OS CINCO SENTIDOS São belas - bem o sei, essas estrelas, Mil cores - divinais têm essas flores; Mas eu não tenho, amor, olhos para elas, Em toda a natureza Não vejo outra beleza Senão a ti - a ti! Divina - ai! sim, será a voz que afina Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. Será; mas eu do rouxinol que trina Não oiço a melodia, Nem sinto outra harmonia Senão a ti - a ti! Respira - n' aura que entre as flores gira, Celeste - incenso de perfume agreste. Sei... não sinto, minha alma não aspira, Não percebe, não toma Senão o doce aroma Que vem de ti - de ti! Formosos - são os pomos saborosos, É um mimo - de néctar o racimo: E eu tenho fome e sede... sequiosos, Famintos meus desejos Estão... mas é de beijos, É só de ti - de ti! Macia - deve a relva luzidia Do leito - ser por certo em que me deito. Mas quem, ao pé de d, quem poderia Sentir outras carícias, Tocar noutras delícias Senão em ti - em ti! A ti! ai, a ti só os meus sentidos, Todos num confundidos, Sentem, ouvem, respiram; Em ti, por ti deliram. Em ti a minha sorte, A minha vida em ti; E quando venha a morte, Será morrer por ti. XVII ROSA E LÍRIO A rosa É formosa Bem sei. Porque lhe chamam - flor D'amor, Não sei. A flor, Bem de amor É o lírio; Tem mel no aroma, - dor Na cor O lírio. Se o cheiro É fagueiro Na rosa; Se é de beleza - mor Primor A rosa: No lírio O martírio Que é meu Pintado vejo: - cor E ardor É o meu. A rosa É formosa, Bem sei... E será de outros flor D'amor... Não sei. XIX CASCAIS Acaba ali a terra Nos derradeiros rochedos, A deserta árida serra Por entre os negros penedos Só deixa viver mesquinho Triste pinheiro maninho. E os ventos despregados Sopram rijos na rama, E os céus turvos, anuviados, Tudo ali era braveza De selvagem natureza. Aí, na quebra do monte, Entre uns juncos mal medrados, Seco o rio, seca a fonte, Ervas e matos queimados, Aí nessa bruta serra, Aí foi um céu na terra. Ali sós no mundo, sós, Santo Deus! Como vivemos! Como éramos tudo nós E de nada mais soubemos! Como nos folgava a vida De tudo o mais esquecida! Que longos beijos sem fim, Que falar dos olhos mudo! Como ela vivia em mim. Como eu tinha nela tudo, Minha alma em sua razão, Meu sangue em seu coração! Os anjos aqueles dias Contaram na eternidade: Que essas horas fugidias. Séculos na intensidade, Por milénios marca Deus Quando as dá aos que são seus. Ai! sim foi a tragos largos, Longos, fundos, que a bebi Do prazer a taça: - amargos Depois... depois os senti Os travos que ela deixou... Mas como eu ninguém gozou. Ninguém: que é preciso amar Como eu amei - ser amado Como eu fui; dar, e tomar Do outro ser a quem se há dado, Toda a razão, toda a vida Que em nós se anula perdida. Ai, ai! que pesados anos Tardios depois vieram! Oh, que fatais desenganos, Ramo a ramo a desfizeram A minha choça na serra, Lá onde se acaba a terra! Se o visse... não quero vê-lo Aquele sítio encantado; Claro estou não conhecê-lo, Tão outro estará mudado. Mudado como eu, como ela, Que a vejo sem conhecê-la! Inda ali acaba a terra, Mas já o céu não começa; Que aquela visão da serra Sumiu-se na treva espessa, E deixou nua a bruteza Dessa agreste natureza. XX ESTES SÍTIOS! Olha bem estes sítios queridos, Vê-os bem neste olhar derradeiro... Ai! o negro dos montes erguidos, Ai! o verde do triste pinheiro! Que saudades que deles teremos... Que saudade; ai, amor, que saudade! Pois não sentes, neste ar que bebemos, No acre cheiro da agreste ramagem, Estar-se alma a tragar liberdade E a crescer de inocência e vigor! Oh! aqui, aqui só se engrinalda Da pureza da rosa selvagem, E contente aqui só vive Amor. O ar queimado das salas lhe escalda De suas asas o níveo candor, E na frente arrugada lhe cresta A inocência infantil do pudor. E oh! deixar tais delícias como esta! E trocar este céu de ventura Pelo inferno da escrava cidade! Vender alma e razão à impostura, Ir saudar a mentira em sua corte, Ajoelhar em seu trono à vaidade, Ter de rir nas angústias da morte, Chamar vida ao terror da verdade... Ai! não, não... nossa vida acabou, Nossa vida aqui toda ficou. Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro, Diz à sombra dos montes erguidos, Di-lo ao verde do triste pinheiro, Di-lo a todos os sítios queridos Desta rude, feroz soledade, Paraíso onde livres vivemos... Oh! saudades que dele teremos, Que saudade! ai, amor, que saudade! XXI NÃO TE AMO Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma. E eu n 'alma - tenho a calma, A calma - do jazigo. Ai! não te amo, não. Não te amo, quero-te: o amor é vida. E a vida - nem sentida A trago eu já comigo. Ai, não te amo, não! Ai! não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração. Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela. Quem ama a aziaga estrela Que lhe luz na má hora Da sua perdição? E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau, feitiço azado Este indigno furor. Mas oh! não te amo, não. E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror... Mas amar!... não te amo, não. XXIV ANJO ÉS Anjo és tu, que esse poder Jamais o teve a mulher, Jamais o há-de ter em mim. Anjo és, que me domina Teu ser o meu ser sem fim; Minha razão insolente Ao teu capricho se inclina, E minha alma forte, ardente, Que nenhum jugo respeita, Covardemente sujeita Anda humilde a teu poder. Anjo és tu, não és mulher. Anjo és. Mas que anjo és tu? Em tua fronte anuviada Não vejo a c'roa nevada Das alvas rosas do céu. Em teu seio ardente e nu Não vejo ondear o véu Com que o sôfrego pudor Vela os mistérios d'amor. Teus olhos têm negra a cor, Cor de noite sem estrela; A chama é vivaz e é bela, Mas luz não tem. - Que anjo és tu? Em nome de quem vieste? Paz ou guerra me trouxeste De Jeová ou Belzebu? Não respondes - e em teus braços Com frenéticos abraços Me tens apertado, estreito!... Isto que me cai no peito Que foi?... Lágrima? - Escaldou-me... Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, Dou-me a ti, anjo maldito, Que este ardor que me devora É já fogo de precito, Fogo eterno, que em má hora Trouxeste de lá... De donde? Em que mistérios se esconde Teu fatal, estranho ser! Anjo és tu ou és mulher? LIVRO SEGUNDO I BARCA BELA Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador! Deita o laço com cautela, Que a sereia canta bela... Mas cautela, Oh pescador! Não se enrede a rede nela, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Oh pescador, Pescador da barca bela, Inda é tempo, foge dela, Foge dela Oh pescador! X SEUS OLHOS Seus olhos - se eu sei pintar O que os meus olhos cegou - Não tinham luz de brilhar, Era chama de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como facho do Destino. Divino, eterno! - e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tão fatal poder, Que, um só momento que a vi, Queimar toda alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi.