Soares Feitosa Nono Poema Viagem à Mirian Parti do Ceará, compadre-primo; já cheguei, Ado, Recife. Estas são notícias minhas, em missão do Amor e o oráculo de Delfos disse a Teseu: -- Se o Amor é teu guia, terás êxito ! E quando gritei Mirian responderam Ana Lúcia, e quando disse Ana Lúcia disseram Antônia, Toí, aquelas que não esquecem... E o fio de Ariadne se enrolava em minhas mãos e minhas mãos estremeciam, ao arrepio da Morte bafejante, rápida e quente, nos caminhos de Sobral, para onde, me dissera a sóror Goretti, Mirian retornara, sem vocação, naquele tempo. Compadre, foi assim mesmo, vi a Morte !: Meu cavalo-de-pau, a 140, estoura-lhe uma ferradura, traseira, o bicho desembestou; chovia... Lembrei dos velhos tempos: jumento Meia-Noite, compadre, passando rente à escada de madeira casa do nosso tio, Juquinha, - a Lucy, a Lucy ! - avoa um galo debaixo da escada e as patas do jumento que iam para frente, sem aviso prévio, foram à direita... e um jovem cavaleiro que ia para frente, em procura dos olhos de Lucy, continuou indo para frente, mas sem o jumento debaixo, que já ia longe, voando ao susto do galo súbito... Percebi, compadre, o barro de nossa terra, aqueles matinhos de nossa terra, - chamavam de carro-santo - acariciarem, com seus tênues espinhos verdes, a face e os lábios deste seu compadre... E os óculos, compadre, ainda hoje os procuro, para ver a prima Lucy à janela... Compadre, o bicho desembestou desta vez muito pior e mais valente, me agarrei aos arreios, caprichei à montaria, o bicho ia para a direita, ia também para a esquerda, caranguejo-siri maluco, deu um giro - chovia - o rumo era Sobral, Mirian, voltou-se para Fortaleza, Antônia, Toí, àquelas que não esquecem... Compadre, o matagal, a lateral, o bamburral foram limpos, um roçado aos corações; o bicho célere, celerado, louco, em disparada, de frente, de banda, de costas, eu dentro, compadre... Os matos eram raspados, o chão era raspado, a vida era raspada: quase ............................................................................. † Ela, a Ceifadeira, bafo quente e fétido, me diz: -- Respeito teu Guia - o Amor - o Oráculo te salva ! -- Escapei fedendo ! Não, não, compadre, o filho do finado Tatim, seu tio, sempre escapou escapado; fedendo, jamais ! O som do animal tocava uma música, chovia, chovia fino (que tudo verdinho), vou continuar escutando, deixar a chuva passar para não molhar a melhor roupa, a mais bonita: para Mirian, aliás, Susana. Vieram dois matutos, de um roçado de junto, e se benziam: milagre, milagre, o senhor está bem ? Qual é o seu Santo ? Que Santo forte, diziam. -- Estou bem, gracas a Deus, meu Santo é São Francisco, do Canindé... É muito forte ! Obrigado, boa-tarde ! -- Não vai o senhor se apear ? Um café, uma água-com-açúcar ? -- É mode a chuva, expliquei, estou de roupa nova, a serviço do Amor, se não, já estava longe, tenho muita pressa... Muito obrigado ! Os matutos se assombraram e disseram: neste alimpado que o senhor fez vamos plantar um roçado, o senhor está convidado para comer a canjica... Rápido, rápido, trocamos a ferradura do animal, eu também me assombrei, emoção da vida renascida, o mesmo coração do amor às mulheres: Mirian ? escutei um rosário de nomes outros... Compadre, deixei o cavalo no pasto, o bicho não quis mais andar, entregue aos matutos, peguei outro bem maior, cheio de gente: Ela, compadre ! Aí eu contava como tinha sido o acidente, como o filho de seu tio continuava vivo, como continuava e como continua desfiando, desafiando também, o novelo do Equador... Laberintos, laberintos de mi corazón, compadrito ! E aí um fala que o cavaleiro tinha coragem... outro pergunta, audacioso, se tomara um banho depois... Claro que não, compadre, seu compadre não precisa tomar banho nessas horas graves ! Só se for de cachaça... Se necessário, dou banho, banho de sangue, compadre, com água e sabão pavão, tomo depois ! Ela, compadre... que escutava tudo, atenta, dobrava e guardava uma varinha... - de condão ? - Não sei, compadre, talvez, talvez, fada-madrinha que talvez fosse. Pergunto-lhe a hora, se tinha relógio. (a serviço do Amor, nunca uso relógios) Tenho, respondeu, abriu uma bolsa, destampou um relógio, caqueou os ponteiros: -- 15 para as dezesseis, disse. Estranhei, compadre, muito estranho, a moça apalpar os ponteiros, que os olhos eram tão bonitos !? Olhos límpidos, mesmo, claros, belíssimos, dirigidos aos sons, mesmo assim, era cega: deficiente visual, como dizem hoje. Ah meu Deus, compadre, foi sem querer, me escapou: -- dá para ir, disse-lhe. Ao que ela ajuntou, ligeira: -- e para voltar... sempre deu...! E a Alegria, Schiller, destampava-se em sua face, que os seus olhos, (iluminada) já disse, tinham brilho, e aí tive a certeza os cegos "verdadeiros": vêem sabem brilham. E ler, sabia, claro, escrever, também, claro, as quatro-contas, evidentemente, a poesia - sou louca por poesia - leio tudo, disse, Pessoa, Fernando Pessoa, Castro Alves e fazia os gestos do Navio que o compadre sabe de cor e salteado... Shakespeare, também lia, Romeo and Juliet Ricardo III, e outros e outros e outros... Blake, claro, claro, o Blake, também lia o Blake ! -- O senhor é um poeta, perguntou. E aí vacilei, compadre, abalei, o violão, à garganta, quase roto, senti que não sou, nunca fui, poeta era ela, em Poesia, apenas disse, encabulado, eu gosto, eu apriceio... Filhos, queria filhos, dois de uma lapada... sobrinhos, tem, para quem faz brinquedos, dobraduras - disse o nome em japonês, que esqueci - dobraduras de papel, explicou, faço qualquer bicho, falou. Aí tirei uma folha do meu caderno, ela, gentil, dobrava e dobrava: vou fazer um tucano - ela disse. Dobrava e dobrava, vlapt, ligeira, puxou duas pontas: - as asas do bicho - piu, piu, imitou. Um bicho-tucano, de papel, belíssimo, perfeito, deu um salto mortal, abriu o bico: piu, piu, pinicou. Compadre, dizem que tem outro bicho que sabe beliscar, que sabe flechar, um tal de Cupido, em terras da Grécia, mas esse outro descarregou a aljava, setas de prata trespassaram um coração e quando eu gritei Mirian ?! Reboaram, aos paredões de pedra, terras quentes de Irauçuba: Ana Lúcia ! a das diabruras, dobraduras e respeitoso, assombrado, dobrei-me. A canja de galinha do padre cheirava deliciosa, Dulce, também delícia, comprara o pão e criava rolinhas e juritis que andavam em cima da mesa. São mansinhas, disse. -- O senhor deve ser o poeta, ele fala muito no senhor disse que está vindo de muito longe, longe mesmo, procurar uma noviça... Dizem que ela ainda usa cachos ?! ........................................... Acho que o senhor é doido... ................................................. Ela também ! Ah, espere, ele chegou. -- Padre Osvaldo, seu amigo está aqui, o poeta, aquele que veio de longe procurar... só pode ser o fim-do-mundo, ela disse. E foi festão: Osvaldo Carneiro Chaves, poeta e padre: grego, latim, hebraico, aramaico, os clássicos - todos - sabe tudo, apenas tudo, o padre-poeta ! Conversamos e conversamos: -- E a Mirian, poeta, você veio procurar ? Umas paroquianas com esse nome, vou pesquisar, é bom botar uns panfletos... Beatriz também foi assim... Conversamos e conversamos: Estética, Retórica, as nove Musas, a Poesia, a Poética, o Brennand, o quadro, o Domador... -- E Mirian, indagou outra vez o padre-poeta, deve ter sido o acidente, você está bem, tem certeza de que não se machucou ? Você, parece, vacila... Conversamos e conversamos: O vinho do Porto regava as palavras, as palavras se regalavam ao porto, os amigos, em Poesia, eram porto e os corações das mulheres eram porto à nau errante do coração do filho dos Feitosas... As castanhas do Ceará, em pouco sal, (Dulce as torrara) avoavam em tiragosto ao Porto... Quando ela então, lá de dentro, gritou: -- A sopa está esfriando, padre ! chame seu amigo. -- Deix'esfriar ! - ele disse. -- Este Porto tem mais de 30 anos, disse o padre-poeta. -- Bote outra, padre ! Lá no Brennand, também, umas garrafas, lá, do Porto, ele abriu uma para o Jorge Amado, o resto eu bebi, padre, no poema do Cachorro ! Conversamos e conversamos: teorias, muitas teorias... Teoria da Intimidade: -- Lendo ? -- Não, padre-poeta, o autor, os personagens são companhia. -- Meditando ? -- Não, os santos, os sentimentos são companhia. -- Trabalhando ? -- Também não, os afazeres, o compromisso, são companhia. -- Onde, poeta, perguntava. -- É naqueles instantes fugazes, padre, sem livros, sem pessoas, sem músicas, sem interesses, nem Mirian pode... ao banho, talvez, caçoando os cabelos, entregue à água... .............................. ................................ .................................. É um dos Elementos... Líbero, libertas: e outros pensamentos que não são bem pensamentos imagens talvez, os posicionais da vida... ... borbulham, padre, levemente, aí você percebe o Eu, a Intimidade ! -- Está insossa esta canja, poeta, bote limão. -- Prefiro pimenta, Dulce, por favor. -- Não tem, não tem molho aqui, o padre faz regime. -- Tem, Dulce, à minha janela tem um pé, malaguetas, vermelhas, lindas. -- Vá não Dulce, é perigoso, eu disse, de noite, tem cobra. Mal cisquei o olho, voltava a Dulce: cinco pimentas vermelhas foram esmagadas ao caldo... E então lembrei outras pimentas: Ela, compadre, que seguia viagem Ibiapina, Serra Grande, fizera mais outro bicho, mais outro e mais outro; as crianças do ônibus eram alegria, todos do ônibus eram alegria, meu caderno acabou-se em tantos bichos... E aí pedi: escreva meu nome. E uma rápida tabuletinha, cheia de furos, um rapidíssimo estilete, sovela de corações: crec, crec, croc: está pronto... ela disse. Aí eu disse: é um autógrafo; ela disse: se eu soubessse, tinha feito o meu. Pois faça. Crec, crec, croc... logo abaixo, está pronto, disse: Ana Lúcia ! Apalpei o papel e não "vi" nada, compadre; então olhei e perguntei: -- O "A" é feito com dois pontinhos ? -- Não, não, o "A" é outra coisa, esses dois pontinhos é para dizer que a letra do nome, do seu nome, Francisco, e do meu é maiúscula. Leia: e apontou: Francisco José Ana Lúcia. Dois pontinhos : dois ! Assombrei, compadre, ............................................. a imensidão a solidão ....................................................... Guardei o autógrafo. Ando com ele, pra cima e pra baixo, veja, compadre: E os bichinhos dobrados, dobraduras, diabruras, saltavam de suas mãos. -- Faço qualquer coisa, ela dizia. -- Pois faça-eu, insultei. -- Ainda não dá: você, por enquanto, é apenas, apenas uma voz, figuras de voz também sei fazer... apenas, apenas no coração... Para fazer o seu rosto, terei de apalpar..." ela disse. "Apalpa, meu amor, meu rosto apalpa" "Falou" o poeta, o Mourão. "Passe a mão, Compadre" "Disse" a Raposa, a Comadre. ................... Que tenho certeza - ela disse - ficaria muito bonito... a voz, a voz já é... gravei... a voz... gravei... bonita ! Percebi, compadre, naquele instante, as luzes do crepúsculo de minha terra já eram quase vermelhas... Vermelhas também foram as pimentas da sopa do padre, colhidas pela Dulce à janela... que vermelhas se faziam naquele instante, as faces da jovem; vermelhos também, seus olhos, brilhantes, ali, tenho certeza, compadre, enxergavam ! Vermelhas também, meu compadre, quando senti o rubor, como se fora às caieiras, baixios do Rio do Governo, (lá, naquele tempo) tijolo e telha, na noite, queimando, polmando fumaça, as nuvens rubras, de céu cinzento, fumeiro, cinza, cachaça; pois assim foram as minhas faces, assim. Também vermelhos, meu compadre, foram meus olhos, naquele instante, tenho certeza, ficaram ....... ... ..... cegos, totalmente cegos, irremediavelmente cegos. Ficaram. Fortaleza/Recife, tarde de 11/06/94 colofão: este poema foi composto entre um pavoroso acidente, fato real, sem nenhum ferimento, km 110, BR 222, a meio caminho de Sobral, CE., dia 10.06.94, e o embarque, de retorno para o Recife, Aeroporto Pinto Martins, Fortaleza, CE., dia 11.06.94. Foi passado direto para o computador e o papel, na manhã de12.06.94, em Recife, PE. notas para o nono poema: 1. - compadre-primo - Luiz Souto Teixeira, primo e compadre do poeta. Personagem do poema Compadre-primo, e também também do poema Poltrona F-6, ambos neste volume. 2. -Ado - personagem do anúncio popular publicado no Diário de Pernambuco em busca da moça da Poltrona F-6, oitavo poema, neste volume. 3. - cavalo-de-pau - poema Ajunt-Hotel, do autor. 4. - jumento Meia-Noite - poema Format Cê Dois Pontos, do autor. 5. - carro-santo - bromeliácea, rasteira, botões vermelhos, produz umas bolotas com as quais os meninos faziam rodas-de-carro, muito abundante às ruas de Monsenhor Tabosa. Naquele tempo. 6. - Schiller: Ode à Alegria, coral da Nona Sinfonia, Beethoven, de preferência sob Karajan. 7. - líbero, libertas - poema Format Cê Dois Pontos. 8. - Irauçuba: - município à margem da rodovia Fortaleza-Sobral; calor escaldante, grandes paredões de granito, paisagem desolada. 9. - apalpa, meu amor - Gerardo Mello Mourão: País dos Mourões, Primeiro Poema, "Iam caindo à esquerda e à direita". 10. - passe a mão, compadre - poema Psi, a Penúltima, do autor. 11 - só os cegos enxergam - Quinto Poema, o Domador, neste volume.