Antero de Quental O Palacio da Ventura Sonho que sou um cavaleiro andante. Por desertos, por so'is, por noite escura, Paladino do amor, busca anelante O pala'cio encantado da Ventura! Mas ja' desmaio, exausto e vacilante, Quebrada a espada ja', rota a armadura... E eis que su'bito o avisto, fulgurante Na sua pompa e ae'rea formusura! Com grandes golpes bato `a porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais! Abrem-se as portas d'ouro, com fragor... Mas dentro encontro so', cheio de dor, Sile^ncio e escurida~o -- e nada mais! ------------------------------------------------------------------------ Antero de Quental Antero de Quental No Turbilhão A Jaime Batalha Reis No meu sonho desfilam as visões, Espectros dos meus próprios pensamentos, Como um bando levado pelos ventos, arrebatado em vastos turbillhões... Num espiral, de estranhas contorções, E donde saem gritos e lamentos, Vejo-os passar, em grupos nevoentos, Distingo-lhes, a espaços, as feições... -Fantasmas de mim mesmo e da minha alma, Que me fitais com formidável calma, Levados na onda turva do escarcéu, Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes? Quem sois, visões misérrimas e atrazes? Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!... ------------------------------------------------------------------------ Livraria Sá da Costa, 1984. Antero de Quental Sonetos, Edição organizada prefaciada e anotada por António Sérgio