Manuel Alegre Trova do Vento que Passa Pergunto ao vento que passa noticias do meu pais e o vento cala a desgraca o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho `a flor das aguas e os rios nao me sossegam levam sonhos deixam magoas. Levam sonhos deixam magoas ai rios do meu pais minha patria `a flor das aguas para onde vais? Ninguem diz. Se o verde trevo desfolhas pede noticias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu pais. Pergunto `a gente que passa por que vai de olhos no chao. Silencio -- e' tudo o que tem quem vive na servidao. Vi florir os verdes ramos direitos e ao ceu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre o sombros curvados. E o vento nao me diz nada ninguem diz nada de novo. Vi minha patria pregada nos bracos em cruz do povo. Vi minha patria na margem dos rios que vao pro' mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha patria `a flor das aguas) vi minha patria florir (verdes folhas verdes magoas). Ha' quem te queira ignorada e fale patria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos bracos negros da fome. E o vento nao me diz nada so' o silencio persiste. Vi minha patria parada `a beira de um rio triste. Ninguem diz nada de novo se noticias vou pedindo nas maos vazias do povo vi minha patria florindo. E a noite cresce por dentro dos homens do meu pais. Peco noticias ao vento e o vento nada me diz. Quatro folhas tem o trevo liberdade quatro silabas. Nao sabem ler e' verdade aqueles pra quem eu escrevo. Mas ha' sempre uma candeia dentro da propria desgraca ha' sempre alguem que semeia cancoes no vento que passa. Mesmo na noite mais triste em tempo de servidao ha' sempre alguem que resiste ha' sempre alguem que diz nao. ------------------------------------------------------------------------ Sent by Carlos Bispo Manuel Alegre Como Ulisses te busco e desespero Como Ulisses te busco e desespero como Ulisses confio e desconfio e como para o mar se vai um rio para ti vou. So' na~o me canta Homero. Mas como Ulisses passo mil perigos escuto a sereia e a custo me sustenho e embora tenha tudo nada tenho que em te na~o tendo tudo sa~o castigos. So' na~o me canta Homero. Mas como U- lisses vou com meu canto como um barco ouvindo o teu chamar -- Pa'tria Sereia Pene'lope que na~o te rendes -- tu que esperas a tecer um tempo ideia que de novo o teu povo empunhe o arco como Ulisses por ti nesta Odisseia. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre Manuel Alegre Debaixo das Oliveiras Este foi o me^s em que cantei dentro de minha casa debaixo das oliveiras. O me^s em que a brisa me po^s nas ma~os uma harpa de folhas e a terra me emprestou sua flauta e sua lua. Mare' viva. Meu sangue atravessado por um cometa visi'vel a olho nu tangido por sate'lites e aves de arribac,a~o navegado por peixes desconhecidos. Este foi o me^s em que cantei como quem morre e ressuscita no terceiro dia de cada si'laba. O me^s em que subi a uma colina dentro de minha casa olhei a terra e o mar depois cantei como quem faz com duas pedras o primeiro lume. Palavras e pedras. Palavras e lume de uma vida. Este foi o me^s em que fui a um lugar santo dentro de minha casa. O me^s em que sai' dos campos e me banhei no rio como quem se baptiza e cantei debaixo das oliveiras as ma~os cheias de terra. Palavras e terra de uma vida. Este foi o me^s em que cantei como quem espelha ao vento suas cinzas e cresce de seu pro'prio adubo carregado de folhas. Palavras e folhas de uma vida. O me^s em que a mulher tocou meus ombros com sua grac,a e me deu a beber a a'gua pura do seu poc,o. Este foi o me^s em que o filho derramou dentro de mim o orvalho e o sol de sua manha~. O me^s em que cantei como quem de si se perde e reencontra nas coisas novamente nomeadas. Este foi o me^s em que atravessei montanhas e cheguei a um lugar onde as palavras escorriam leite e mel. MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim as aves todas da floresta. Enta~o reparei que era o lugar do poema o lugar santo onde cantei entre mulher e o filho como quem da' grac,as. Este foi o me^s em que cantei dentro de minha casa debaixo das oliveiras. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre ------------------------------------------------------------------------ Ola' a todos A democracia pode agora comprar alcool em todos os estados dos EUA, ja' tem 21 anos. O poema acima foi publicado quando ainda lhe estavam a nascer os dentes, ou seja em 1976. . s Manuel Alegre Flores para Coimbra Que mil flores desabrochem. Que mil flores (outras nenhumas) onde amores fenecem que mil flores floresc,am onde so' dores florescem. Que mil flores desabrochem. Que mil espadas (outras nenhumas na~o) onde mil flores com espadas sa~o cortadas que mil espadas floresc,am em cada ma~o. Que mil espadas floresc,am onde so' penas sa~o. Antes que amores fenec,am que mil flores desabrochem. E outras nenhumas na~o. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre Manuel Alegre Ultima Pagina Vou deixar este livro. Adeus. Aqui morei nas ruas infinitas. Adeus meu bairro pa'gina branca onde morri onde nasci algumas vezes. Adeus palavras comboios adeus navio. De ti povo na~o me despec,o. Vou contigo. Adeus meu bairro versos ventos. Na~o voltarei a Nambuangongo onde tu meu amor na~o viste nada. Adeus camaradas dos campos de batalha. Parto sem ti Pedro Soldado. Tu Rapariga do Pai's de Abril tu vens comigo. Na~o te esquec,as da primavera. Vamos soltar a primavera no Pai's de Abril. Livro: meu suor meu sangue aqui te deixo no cimo da pa'tria Meto a viola debaixo do brac,o e viro a pa'gina. Adeus. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre Manuel Alegre Coisa Amar Contar-te longamente as perigosas coisas do mar. Contar-te o amor ardente e as ilhas que so' ha' no verbo amar. Contar-te longamente longamente. Amor ardente. Amor ardente. E mar. Contar-te longamente as misteriosas maravilhas do verbo navegar. E mar. Amar: as coisas perigosas. Contar-te longamente que ja' foi num tempo doce coisa amar. E mar. Contar-te logamente como doi desembarcar nas ilhas misteriosas. Contar-te o mar ardente e o verbo amar. E longamente as coisas perigosas. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre Manuel Alegre Lisboa perto e longe Lisboa chora dentro de Lisboa Lisboa tem pala'cios sentinelas. E fecham-se janelas quando voa nas prac,as de Lisboa -- branca e rota a blusa de seu povo -- essa gaivota. Lisboa tem casernas catedrais museus cadeias donos muito velhos palavras de joelhos tribunais. Parada sobre o cais olhando as a'guas Lisboa e' triste assim cheia de ma'goas. Lisboa tem o sol crucificado nas armas que em Lisboa esta~o voltadas contra as ma~os desarmadas -- povo armado de vento revoltado violas astros -- meu povo que ningue'm vera' de rastos. Lisboa tem o Tejo tem veleiros e dentro das priso~es tem velas rios dentro das ma~os navios prisioneiros ai olhos marinheiros -- mar aberto -- com Lisboa ta~o longe em Lisboa ta~o perto. Lisba e' uma palavra dolorosa Lisboa sa~o seis letras proibidas seis gaivotas feridas rosa a rosa Lisboa a desditosa desfolhada palavra por palavra espada a espada. Lisboa tem um cravo em cada ma~o tem camisas que abril desabotoa mas em maio Lisboa e' uma canc,a~o onde ha' versos que sa~o cravos vermelhos Lisboa que ninguem vera' de joelhos. Lisboa a desditosa a violada a exilada dentro de Lisboa. E ha' um brac,o que voa ha' uma espada. E ha' uma madrugada azul e triste Lisboa que na~o morre e que resiste. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre Manuel Alegre Letra para um hino E' possi'vel falar sem um no' na garganta e' possi'vel amar sem que venham proibir e' possi'vel correr sem que seja fugir. Se tens vontade de cantar na~o tenhas medo: canta. E' possi'vel andar sem olhar para o cha~o e' possi'vel viver sem que seja de rastos. Os teus olhos nasceram para olhar os astros se te apetece dizer na~o grita comigo: na~o. E' possi'vel viver de outro modo. E' possi'vel transformares em arma a tua ma~o. E' possi'vel o amor. E' possi'vel o pa~o. E' possi'vel viver de pe'. Na~o te deixes murchar. Na~o deixes que te domem. E' possi'vel viver sem fingir que se vive. E' possi'vel ser homem. E' possi'vel ser livre livre livre. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre Manuel Alegre Abaixo el-rei Sebastião É preciso enterrar el-rei Sebastião é preciso dizer a toda a gente que o Desejado já não pode vir. É preciso quebrar na ideia e na canção a guitarra fantástica e doente que alguém trouxe de Alcácer Quibir. Eu digo que está morto. Deixai em paz el-rei Sebastião deixai-o no desastre e na loucura. Sem precisarmos de sair o porto temos aqui à mão a terra da aventura. Vós que trazeis por dentro de cada gesto uma cansada humilhação deixai falar na vossa voz a voz do vento cantai em tom de grito e de protesto matai dentro de vós el-rei Sebastião. Quem vai tocar a rebate os sinos de Portugal? Poeta: é tempo de um punhal por dentro da canção. Que é preciso bater em quem nos bate é preciso enterrar el-rei Sebastião. ------------------------------------------------------------------------ Manuel Alegre